Pela liberdade religiosa

O que falta nas famílias e nos círculos sociais brasileiros é tolerância, principalmente tolerância religiosa. Cada um tem a maldita religião que quiser, ou mesmo nenhuma religião, se assim o indivíduo desejar. Estamos em 2015, e ainda existe hipocrisia e intolerância entre as religiões.

Esses dias eu estava vendo um muçulmano dizer, que o grupo Estado Islâmico não são muçulmanos, e apenas terroristas, e que essa comparação do EI com muçulmanos doía em sua alma, principalmente quando dizem que eles são ‘muçulmanos ruins’. Logo vieram dizer ao cara que eles são sim muçulmanos, que seguem à risca o Alcorão (o que é impossível, na minha opinião). Então esse jovem muçulmano diz: “Mas, e as cruzadas? Elas seguiam a bíblia também, porque para vocês eles não são considerados cristãos? “. E é triste pensar que esse ponto relevante foi um tiro dado ao próprio pé, pois aos montes surgiam pessoas vociferando bobagens ao cara. Acho interessante que aos cristãos é permitido negar seu lado extremo, e não aos muçulmanos. Como eu amo a internet.

Aceitem, cristianismo e suas ramificações estão longe de serem a melhor de todas as religiões, ou a mais pacífica e a que ensina melhor o respeito e o amor. Primeiro porque o livro, em um primeiro momento, retrata um Deus de uma forma na qual todos devem temer e, em um segundo momento, ele é o Deus do amor e piedade. Cristãos nunca dão a outra face, eles apenas revidam.

Enquanto eu concordo que existam pessoas que sigam o lado ‘bom’ do livro, são poucas as que fazem. Começando pelo conservadorismo, a maioria dos cristãos conservadores adoram vociferar sobre liberdade e amor, enquanto negam o aborto, pedem a redução da maioridade penal, e pior – pasmem! – pedem a pena de morte. Jesus recebeu pena de morte, e isso foi a 2014 anos atrás. Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que falam fazem. O novo testamento ensina o Amor e o perdão, coisa que é totalmente oposta ao que muitos ‘cristãos’ falam e fazem. Mas existem bons cristãos sim, pessoas como Tolstói, que afirma que não se deve resistir ao mal, usando o próprio mal.

Deve ser bem triste ouvir que um grupo como o EI pega um livro tão bonito, e interpretam de uma forma tão bárbara e escrota, como eles fazem. O Deus retratado no Alcorão é aquele que exige o respeito, mas que também respeita. E ele é o mesmo Deus cristão e mesmo Deus judaico, só muda a forma com a qual seu profeta o retratou. Mas infelizmente, o EI se nomeia muçulmano, assim como os cruzados e os caçadores de bruxa se nomeavam cristãos. E que daqui décadas, pessoas estudem esses grupos, para que isso não ocorra novamente.

Nas camadas mais jovens da sociedade, a religião que reina é a ciência. Os jovens costumeiramente enchem o peito para falar da ciência, falar sobre o mito evolucionista. Falo disso por conhecer diversos amigos e amigas, que assim o fazem – e ter feito isso um dia. Chegamos a um ponto onde a religião é mais científica que a ciência, e ao ponto de a ciência ter os mais fiéis seguidores que as religiões. A ciência provou algumas coisas, mas nunca provou a inexistência, ou existência de Deus, nem mesmo provou como surgiu o universo. Ela é uma manifestação desse belo desejo humano de entender o universo. O problema é que muitas pessoas que se dizem ‘homens da ciência’, não passam de cuzões que seguem uma teoria cegamente, sem questionar nada. Pessoas que acham que Einstein está 100% certo. Como Jane Roberts disse uma vez: “Quando acreditamos que a ciência, ou a religião tem ‘A Verdade’, nós paramos nossas especulações. Enquanto ainda se referindo a teoria da evolução, a ciência aceita o fato, sobre a existência e, portanto, qualquer especulação que ameaça essa teoria, torna-se quase herética”. Não use a ciência para contradizer argumentos religiosos, são duas coisas distintas. Ciência não deve ser religião, nem a religião uma ciência, as duas deveriam cooperar mutuamente, para o bem da humanidade.

A maioria das pessoas que usam argumentos científicos, na maioria das vezes, são ateus. Esses que já sofreram com intolerância, hoje fazem a mesma coisa que alguns religiosos faziam. Eles ainda sofrem alguns preconceitos, principalmente de famílias mais tradicionais/conservadoras. Contudo a maioria dos ateus não respeita outras religiões. São os primeiros a dizerem que os outros estão errados, que os outros são idiotas e cegos, que são levados pelas rédeas como carneirinhos. Se você é esse tipo de pessoa, você é só mais idiota ordinário, que se diz de mente aberta, um estudante das ciências, mas que provavelmente acredita no mito evolucionista, você não é muito diferente dos extremistas religiosos. Mas assim como os cristãos, sei que existem bons ateus, que são indiferentes em relação a fé alheia.

Os budistas em um geral, tentam manter uma relação de respeito e amor com o próximo, embora eu já tenha visto alguns budistas caçoarem de outras religiões. Eles, diferente das outras religiões, percebem que a busca da paz – que todas religiões pregam – depende apenas do indivíduo, que busca a paz em si próprio e consolida a harmonia na sociedade. A problemática é que alguns monges budistas, apenas se lamentavam sobre as injustiças do mundo, assim como alguns também ficavam ao lado de líderes orientais, enquanto eles cometiam graves atrocidades e violência contra a humanidade – algo natural de qualquer tipo de liderança, devo dizer.

No ocidente, essa religião é tratada como uma filosofia, ou estilo de vida. Frases inspiradoras compartilhadas no facebook, yoga, estátuas dum homenzinho careca e gordo, coisas do tipo são um certo sucesso. Budismo é bem difundido entre a elite, e mesmo que os monges não façam uma diferenciação social de seus ‘devotos’, é importante notar isso. Como toda religião, o budismo evoluiu junto a sociedade, e uma das suas ramificações é o zenanarquismo, ou anarcobudismo, que aponta semelhanças nas práticas anarquistas e as práticas budistas – especificamente do zen.

A ideia surgiu com um ensaio de Garry Snyder, onde ele ressalta o fato dos monges não adotarem uma posição contrária aos líderes-genocidas, e onde ele fala da adoção de táticas como desobediência civil, protesto pacífico e poder de voz. Garry faz uma crítica contundente, tanto ao capitalismo, quanto ao comunismo.

O Comunismo foi – e em alguns grupos, ainda é – bem desrespeitoso com a religião alheia. Talvez porque na sociedade deles, a liberdade individual estava fora de questão. Marx dizia que a religião era o ópio do povo, ideia que – espero eu – tenha mudado em diversos círculos marxistas. Os chineses enviavam monges budistas para a guerra. Imagine ser um indivíduo que decide devotar sua vida ao pacifismo e ao dharma, e ser privado dessa sua decisão por algum senhor da guerra. Uma revolução onde não há liberdade religiosa, não é minha revolução. Quando uma pessoa se converte a uma religião, por livre escolha e não tenta força-la as outras pessoas, não há porque priva-lo desse direito. Todas as religiões ensinam respeito e amor, a sociedade ensina exatamente ao contrário. Sempre dizem que a religião não deveria influenciar na política, mas tristemente deixamos a política interferir nas religiões.

E antes que levantem alguma questão sobre a laicidade do Estado, eu sou totalmente contra a proposta do Daciolo, de alterar a proposta da constituição que diz que ‘o poder emana do povo’, para ‘o poder emana de Deus’, pelo simples fato de que a devoção de uma religião vem do indivíduo e não deve, de maneira alguma, ser imposta por outros grupos de indivíduos. Isso é uma decisão individual, e não social. Embora não possamos deixar que essa decisão afete a decisão alheia.

O que infelizmente não é o caso, pois atualmente no Brasil tem surgido uma onda de ódio, contra pessoas de religiões Afro-brasileiras. Até mesmo com declaração de pastores, evangélicos, para que apedrejassem umbandistas. Ou a infeliz declaração do Datena, que disse que ateístas cometem crimes, pois não tem Deus no coração.

Uma pessoa pode ter uma religião, se assim ela quiser, assim como essa mesma pessoa pode muito bem viver sem uma religião, se assim ela desejar. Ninguém está certo ou errado. Isso não é uma questão de competição, isso é uma questão de fé: Ou você tem, ou você não tem.

Nota: Não citei o hinduísmo, por conhecer pouco da religião e do que eles pregam, mas acredito que não seja muito diferente das outras [em relação a pregar amor e paz], uma vez que Gandhi era hinduísta. Além de que não existe tantos hindus aqui no Brasil, como nos EUA e na Inglaterra, onde há um preconceito fodido contra a religião, mas a ideia se mantém a mesma da retratada no texto. Também não citei religiões mortas (os panteões gregos, romanos, nórdicos, célticos, etc), por mais que exista um ‘renascimento’ dessas práticas pagãs, seu impacto social é quase nulo, mas a ideia se mantém a mesma, em relação à tolerância. E não citei freak-religions (discordianismo, pastafarianismo, kopimismo, etc), por questões óbvias, assim como também não citei cientologia, por ser um culto e não uma religião.