Sinto-me mais burro

Eu tenho me sentindo mais burro do que um dia já fui. Não sei dizer porque, mas tento entender, e o que você lerá a seguir talvez tenha uma conclusão, ou não. Nunca fui do tipo que responde questões, mas do tipo que faz mais perguntas. Isso talvez seja parte do problema, mas não me limitarei a essa linha de pensamento.

N’outro dia eu estava conversando com um amigo, que também é escritor e em seu próprio mérito um desenvolvedor de jogos – embora nunca tenha jogado nada dele, rá! – e nessa conversa eu disse a ele como eu me sinto mais burro, coisa que cheguei até a mencionar com a médica da cabeça n’outro dia também, mas a gente já chega lá.

Eu disse a ele “sei lá, Mat, eu ando me sentindo meio burro. Mais burro do que já fui. Tipo, antes eu conseguiria conversar contigo e dissertar sobre o absurdismo de Camus, e como isso tem estado mais claro nos dias de hoje, mas se hoje eu tentasse, provavelmente não fosse tão produtivo”. Citei Camus por dois motivos, o primeiro porque é algo que eu tenho tentado reler recentemente, sem muito êxito. O segundo motivo, porque eu já conversei com ele sobre o assunto, numa época que eu tinha emplacado um combo absurdista de ler O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, e tudo que eu fazia tinha um dedo de apontar o absurdo nas coisas do dia a dia. Na época eu criei um ‘jogo’ – que não era de fato um jogo, mas não entremos num debate acerca do que constitui um jogo, eu vi isso uns 3 semestres seguidos na faculdade, e cada semestre uma apresentação diferente do que pode ser interpretado como um jogo, esse aposto ficou muito grande aaaaaaaah – chamado “O melhor RPG de Comédia já feito no Ace”, lançado no dia 20 de dezembro de 2012, e ele foi escrever um dissertação – igualmente cômica – de como o jogo era uma metáfora para o mito de sísifo, – quote – Como no mito de Sísifo, somos convidados a rolar a pedra eternamente como maldição pelos jogos de humor que criamos. Mas desistir será a solução? Não. – end quote -. A resenha dele foi um pouco tardia, no começo de 2014. Mas ainda assim, acabei por conversar com ele sobre o assunto e falamos sobre o estado deplorável das comunidades makers e tudo o mais, vocês sabem como é.

Ele então disse “Pô Dias, cê não acha que isso pode ser um reflexo de você não estar praticando tanto debate? ”, e como eu respondi a ele, pode sim. Eu não tenho debatido mais sobre filosofia, e sempre que eu debato eu acabo, 1) ou fazendo meu argumento muito confuso, onde a pessoa não entende, 2) ou eu encho de informações que as vezes são irrelevantes e eu mesmo me perco em meu argumento – MALDITOS APOSTOSSS!!!!!

A médica da cabeça disse que a maldição da minha geração – e das gerações que estão nascendo agora, caso a situação não mude – é que temos um acesso muito grande da informação, mas não conseguimos condensar todas essas informações. E isso deixou o nosso pensamento muito acelerado, milhares de vezes mais acelerado que a das gerações que nos antecederam. Segunda ela, o fato de eu não escrever em quantidades grandes se dá por isso, pois meu pensamento é muito rápido, e a cada palavra que eu digito, eu já tenho as outras 5 pra frente já planejadas na minha cabeça – agora pense nisso como um leitor, onde sua leitura é mais devagar, e o texto já está todo na sua frente, e conforme você lia que meu pensamento está sempre a frente, até mesmo na frase que faz essa afirmação, eu já pensava nesse aposto gigante, que provavelmente nem pode ser considerado um aposto – e que isso dificulta muito as coisas. Meus textos, nos quais eu escrevia com facilidade e nem revisava – BOY OH BOY, a qualidade daqueles textos eram um lixo – por mais que houvessem erros, eles tinham uma certa linha de coerência, que daria para a/o leitor/a entender o que estava escrito, apesar dos apesares.

Eu sinto que na minha escrita hoje existe uma influência da Geração Beat – coisa que eu já carrego desde 2013, aliás, mas – que faz com que eu cuspa meu texto na tela, por meio de meus dedos no teclado. Eu encho de apostos, seja por vírgulas ou separados por travessões (as vezes usando parênteses), mas também há um ritmo corrido, como se eu estivesse fodido da cabeça – não que eu não esteja – e que coloca tudo o que eu quero falar e mais um pouco nas palavras, usando palavras simples, mas com usos que são diferentes do costumeiro. Não sei dizer. É como se eu pegasse as piores partes de big sur, que são corridas e cheias de ideias, onde Jack começa falando de algo, aí entra em um aposto de 40 linhas para falar dos sentimentos dele acerca do assunto, ou até mesmo para elaborar mais o assunto – algo que poderia ser facilmente digerido sem o aposto, não é mesmo leitor/a?

Talvez esse estilo slacker mais caos e confusão discordianos mais neoísmo mais as minhas influências já antigas e as vezes quase esquecidas, mas ainda sim parte das minhas raízes, do punk rock. É como se cada parágrafo eu tentasse manter um ritmo de nazi punks fuck off, com uma prosa requintada e pomposa de Rimbaud ou Oscar Wilde.

Falando em Rimbaud, é um exemplo que eu acabei por usar com o Mat e com a médica da cabeça. Eu li Rimbaud em 2012, eu estava no primeiro ano do ensino médio. Peguei um livro dele de poesias diversas e com Uma Estação no Inferno. Chapa, se na época você me perguntasse, eu provavelmente recitarei uma das poesias e ainda diria minha interpretação acerca do que estava escrito ali. Na terça-feira dessa semana mesmo (02/05/17) eu peguei para reler Uma Estação no Inferno, e enquanto eu estava deitado lendo, passando meus olhos sobre aquele texto, eu só conseguia pensar que RIMBAUD ESTÁ MORTO E ENTERRADO EM ALGUM LUGAR DA FRANÇA, e que isso me deixa(va) desconfortável, porque a prosa e poesia dele são infinitas e continuaram a apoiar nossa classe e nossa luta muito após eu morrer, e até mesmo quando perdemos a batalha final e que toda esperança for perdida para tiranos e capitalistas, a prosa dele vai fazê-los dormir desconfortáveis, pois saberão que isso um dia será a faísca que vai acender o pavio. Mas além disso, a maior das certezas que eu tive enquanto relia, É QUE RIMBAUD É CHATO PRA CARALHO.

Enquanto eu tomava prazer em Rimbaud, em Wilde, e em Baudelaire, esses filhos da puta estão mortos, suas prosas e poesias, por mais lindas e importantes para a nossa classe, são um bagulho chato pra caralho, que só se sustenta na sociedade por 1) acadêmicos que querem bancar o intelectuais – e afirmam ser intelectuais – e querem preservar a ‘boa cultura’, seja lá o que essa porra signifique, 2) pessoas que acabaram de conhecer esses clássicos, e acham que todos tem que conhecer e falar deles o tempo todo, e aqueles que já se esqueceram que releiam, 3) escritores babacas que querem ser OS intelectuais, achando que as obras deles são quase equiparáveis a um deles – been there, done that – mas o que eles não percebem é que imitar os clássicos e falar de albatrozes sendo massacrados por pescadores (ave PETA), ou de gigantes egoístas, ou de abrir asas de outros jovens, não faz deles tão bons quanto os clássicos, fazem deles uns puta duns babacas sem originalidade e chatos pra caralho, onde passado do primeiro verso dá vontade de se cagar por simples se cagar.

Talvez eu não esteja burro, embora eu esteja sim, mas estou apenas cansado. O que fazemos todos os dias, especialmente nos círculos artísticos é querer mostrar que você sabe, que você entende, que você é o mestre da porra toda. Mas qual a relevância de tudo isso? Nenhuma. Baudelaire dizia que o que movia os poetas era o Tédio, mas para onde eu olho, a única coisa que eu vejo mover os poetas é seu Ego, ou sua petulância, ou uma falsa sensação de importância. É impossível ficar em um sarau sem sentir um senso de depressão, e uma vontade de mutilar minha rola e sair cagando pelo chão. Enquanto eu entendo que tudo o que a gente faz é para ser aceito na sociedade (ou comer alguém, como já diziam outros poetas), esse ato de fazer é o mesmo que uma inação, pois a única coisa que rola em saraus pelo Brasil são poesias de como a vida é bela e boa para ser vivida – embora nossa classe sofra pra caralho, especialmente os que estão mais a baixo –, ou como o amor é a coisa mais importante na vida – mais importante que acordar cedo e dar aquela cagada, aparentemente -, ou é alguma ode às trevas, um pseudo monólogo acerca da escuridão e de como a vida moderna é vazia, ou como a tecnologia tem escravizado as pessoas. O segredo secreto – e longe de mim ser o dono de toda a verdade, uma vez que meu ponto é o contrário disso tudo – a vida, a sociedade e o amor é tudo isso, nada disso e um pouco mais! Especialmente a parte sobre a relevância de acordar pela manhã e dar uma cagada.

Uh. Isso saiu de um texto sobre o quão burro eu sou, para uma rant das artes (pós)modernas.

De qualquer forma, eu tenho sentido como se toda informação que eu tento me agarrar, escorre pelas minhas mãos, tão rápido quanto ela entrou. É como dizem por aí, sei mais que meus antepassados, mas retenho menos do que eles. Meu fluxo de informação é maravilhoso, consegui construir uma rede de contatos que eu admiro, e agradeço a elas e eles por fazerem parte desse fluxo. Eu consigo ter acesso a praticamente tudo que me é irrelevante. Tendências artísticas? Eu tou dentro. Algum político de direita/esquerda soltou uma cagada, e falou/fez algo que nos prejudique? É tou sabendo. Aquela festinha louca transcendental de exploração do Eu? Amanhã tou lá. Aquele sarau, onde vão falar de como a vida é bela e boa para ser vivida, como o amor é a coisa mais importante da vida, como a vida moderna é vazia e vivemos na nova era das trevas, e como a tecnologia tem escravizado as pessoas? Podepá irmã/o. Qual a relevância dessa rede e desse fluxo de informação? Aparentemente nenhuma. Qual a utilidade?

Qual a utilidade? É algo que me excita, e que me deixa feliz, mas embora eu saiba mais, eu não mantenho nada. Se estivéssemos falando em termos materiais, é como se eu pudesse experimentar todas as vodkas do mundo, mas não pudesse ficar com nenhuma delas. Não porque me é proibido, ou porque eu não ache nenhuma que eu goste, mas porque eu estou em um coma alcóolico. Eu estou em um coma alcóolico de informação. Eu leio um milhão de artigos sobre políticos, sobre como estamos perdendo nossa luta ao redor do mundo, sobre gadgets úteis, life hacks, sobre humor, sobre como ter experiências transcendentais, sobre como enquadrar e dirigir filmes, mas de que forma eu estou dirigindo minha vida?

I have no mouth, and I must scream.

No outro dia lembrei que a vida, por mais ‘longa’ ou ao menos o que consideramos longa pelo tamanho de tempo no qual estamos acostumados a ser o tempo que nos é nada, ela é apenas isso: momentânea. Nesse exato momento, eu estou com o cronômetro do meu celular ligado, contando o tempo que eu demorei para escrever esse texto, sem interrupções, porque eu não tenho noção de quanto tempo se demora para se escrever um texto. Uma hora e Vinte um minutos, 1976 palavras. São 1h19 da madrugada. E a vida é isso, ela não para, embora eu me sinta estagnado, com meu fluxo de informação sempre em rotação. Eu vou à faculdade todas as noites, as tardes geralmente dedico ou ao estudo ou ao meu fluxo, e eu não tou fazendo nenhum dinheiro com nenhuma dessas atividades, e eu preciso de dinheiro, quem não precisa de dinheiro? A vida não tá fácil, nossa classe a cada dia é destruída aos poucos para favorecerem os patrões, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, João Dória dando 80% de desconto nas dívidas das empresas, enquanto corta gastos para programas educacionais e culturais na periferia de São Paulo. Eu nem vivo mais em São Paulo, mas isso me deixa puto pra caralho. E tudo isso, e eu me sinto como um vagabundo, uma sanguessuga que vive explorando o trabalho das pessoas a minha volta, enquanto eu não faço nada além de estudar e observar meu fluxo de informação, e não conseguir me agarrar a nada, a ninguém, e tudo isso me corrói por dentro, porque eu queria fazer mais do que eu faço, mas talvez eu tenha medo de sair lá fora, e eu ainda sim saio, mas nenhuma experiência boa vem, e tudo isso é provavelmente a minha culpa. Eu não estou me esforçando o bastante, e nem as pessoas à minha volta, porque a mobilidade social é algo que existe, você sabia? É, é o que dizem por aí, e eu queria entender isso, e tentar isso, mas não me apetece, e não me é possível no momento. A única coisa que me resta é subir a porra da montanha, e lá encima gritar para o mundo todo ouvir, que por mais que aquilo tudo não importe – pois me ensinaram assim – e que todos vamos morrer um dia, aquilo ainda assim me corrói por dentro. Todos vamos morrer um dia, mas ainda assim, nossas vidas não são irrelevantes, por mais que as cobras niilistas que detêm o poder digam isso para nos desestimular. As ovelhas um dia vão pegar facas e estriparem os lobos, fazendo-os gritar em dor enquanto sangram até a morte. Ao mesmo tempo, nossa vida não é tão valiosa quanto afirmam os donos das cruzes douradas, que nos vendem uma esperança para algo que não é palpável e é incerto, para nos tranquilizar em todo nosso sofrimento nas mãos dos poderosos.

A cada dia, eu sinto que minha liberdade será tomada de mim, usando mentiras das quais eu não tenho responsabilidade, ou sanidade para utilizar minha liberdade. O fim da minha vida é atrás das grades, atrás das grades do hospício, por faltar me inteligência e sanidade. Ou atrás das grades de uma prisão, por matar J. Dólar.

Minha geração é constituída de malditos, que sofrem de problemas mentais derivados de nosso contexto sociopolítico. Dizem que somos uns mimados filhos da puta, mas se esquecem de que não nos criamos sozinhos, fomos criados. Somos fruto do ensino de nossos pais e mães, fruto de uma sociedade doentia, que faz as pessoas trabalharem igual condenados, para que não haja certeza se o amanhã chegará um dia. No fim, a maior de todas as mentiras já contadas, é nossa ordem social. Iremos todos para o inferno, pois somos indignos de perdão.

“Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio”.

Koan do Bolsonazi

14 (1+4 = 23) discordianos estavam sentados em uma roda, quando um deles disse “Ei, vamos trollar a extrema-direita brasileira”, outros doze concordaram, um deles relutante concordou com ressalva. Eles passaram dias procurando links para uma conexão espiritual zipzapiana com a extrema-direita, e nada surgia.
Uma delas, por fim, virou-se ao São Gulik e pediu para que por fim chamasse Éris. Ela então se dirigiu a Éris:
“Ó Éris, concubina da confusão, mãe santíssima de todas as discórdias, como poderíamos fazer uma conexão zipzapiana com a extrema-direita brasileira”.
“Não podem”
“Você não vos permite? Não existem leis, a menos que nós queiramos, assim diz a escritura”
“Não podem, pois eles se organizam, mas não de forma zipzapiana”
“E se os atraíssemos, ó senhora do Caos”
“Talvez”
Por horas, ela meditou nas palavras obscenas proferidas por Éris, e por fim passou aos outro 13. Os 14, por fim, criaram um Hub Zipzapiano em ode ao Bolsonaro, e então o jogaram na rede caótica de bits e bytes.
No começo só havia Caos. 14 pessoas, o vácuo digital. Então disseram: “Vinde a mim, ó filhos da miséria mental”.
E então veio a ordem destrutiva. Memays em prol, glórias a deus, equiparações com Jesus Cristo de Nazaré. Mas como sabemos, imposição de ordem, gera uma escalação de Caos, e que assim seja até o fim dos tempos. Aos poucos, ESQUERDISTAS PÓS-MODERNOS surgiram e começaram a simular estereótipos de Bolsonaristas. Os 14, que muito bem formados das escolas do pensamento erisiano, em nada ali acreditaram, mas em pleno gozo e felicidade infantil eles riram.
Ocasionalmente, quando o grupo deixava de ser ativo e a zoeira da esquerda parava, e a fé implacável da direita era nula, um ou mais dos quatorze jogavam uma lenha na fogueira, e então se recostavam com seus marshmallows para assistir ela queimar e queimar como as chamas de um templo ancião – saído de algum RPG que não entende como o fogo funciona e deixa tudo aceso em tumbas com 500 anos de vida.
Mas assim como é dito que imposição de ordem escala o Kaos, com a escalação do Kaos, se impõe ordem, e assim exigiram os bolsonarista. Para não quebrar o disfarce e prolongar o fnord, assim fizeram os 14.
Após se aquecerem e de muito comerem marshmallow, os 14 estavam cansados daquela fogueira, cheia de ordem destrutiva, e por fim aplicaram Caos Construtivo, anunciaram que aquilo era um Fnord, e ao contrário do que os Bolsonaristas pensavam, Bolsonaro não era Deus, e ao contrário do que os Esquerdistas pensavam, os Bolsonarista não eram maus, só eram burros, pois ninguém escolhe o mal por ser o mal, mas sim por confundi-lo com a felicidade, que é o que buscam. Então, eles removeram todos os Bolsonaristas, todos esquerdistas e a eles mesmos… Só que eles deixaram o link zipzapiano aberto, e agora o hub zipzapiano pró-bolsonaro tem vida própria e é de fato um grupo pró-bolsonaro, e não uma bait discordiana.
Como dizem por aí: Shit happens ¯\_(ツ)_/¯

Blues da Insônia

Queria escrever um blues, que tivesse uma pegada suave e leve na leitura, e fosse suave e leve aos ouvidos. Quem sabe algo grandioso e que colocasse pessoas em um estado louco contemplativo, e se inspirariam para escreverem outras mais e mais coisas, apenas para minha vã mente de escritor fracassado se sentir parte de algo, se sentir útil ao mundo, poder dizer, “Ei, ah lá, a mina ali se inspirou no meu texto para escrever essa música”, está certo que ela teria uma vida muito melhor que a minha. Talvez ela se condicionaria e jogaria de acordo com o sistema, logo seria mais suave para ela.

Já eu, eu preciso ser o rebelde, a lâmina no escuro, que ajuda sem ser vista. Ou talvez tudo isso seja uma paranoia louca, daqueles momentos da vida que eu nem me entendo.

Tic tac, são três horas e trinta e três minutos, senhoras e senhores, Dave Van Ronk canta de forma sublime Saint James Infirmary, devo dizer que não ouvia versão alguma dessa música há anos. Let her go? God bless her. Canopos não está visível hoje, temo informar, senhoras e senhores, e aparentemente nem a lua, que deram espaço para nuvens espessas que adotam uma cor marrom com a poluição luminosa paulistana. Mas não tem problema algum, senhoras e senhores, amanhã tem mais?

Eu espero que não. São três e trinta e seis, repito, três e trinta e seis da manhã, qual o maldito motivo de eu estar acordado essa hora da noite? Eu não sei! Mas quando eu descobrir eu os informo! Meus olhos já estão pesados, e pedindo arrego, mas quando eu os fechos, dói. Como se algo os corroesse, oh deusa, oh deusa, deixe-me dormir, a imploro. Dave Van Ronk, Dave Van Ronk, porque diabos sua voz é um misto de frutas batendo ao leite no liquidificador, com estática da televisão e com minha cachorra acordando da anestia em plena agonia? E mais, porque diabos sua voz consegue ser tão melódica e agradável, a ponto de trazer-me a plenas lágrimas? Seria essa minha falta de sono? A culpa é sua? Ou você é um efeito da minha insônia?

Senhoras e senhores, senhoras e senhores, são três horas e quarenta e dois minutos da matina, retificando, três horas e quarenta e três da matina! Bom dia Vietnã, diria O Cara, se ele não estivesse morto. Consigo ouvir uma certa inquietação no quarto dos meus pais, e meu irmão se revira lá na sala, minha cachorra quieta, mas logo se coça e toca o sino que prendemos em sua coleira, é cômico, vos asseguro.

Se eu tivesse asas, se eu tivesse asas, provavelmente ficaria parado o dia todo e ocasionalmente a bateria, só pela piada. Mas aqui: não me interpretem mal, não me refiro a asas da forma que Rimbaud se referia. Me pergunto onde está Rimbaud nesse momento? Na África bancando o pederasta pervertido? Ou em algum buraco ou vala qualquer em algum lugar qualquer da França? Almôndega almôndegas almôndega.

São três e cinquenta em ponto, senhoras e senhores, e hoje mais cedo, lá para uma hora da matina, ouvi um tiro ao longe. Fiquei com certo medo, devo dizer, mas um minuto depois veio outro tiro, então minha alma se acalmou. Ainda são três e cinquenta, três e cinquenta, será que o tempo decidiu parar, tipo do nada? Será que ficarei aqui, parado, estagnado? Seria assim o inferno? Ou o céu? A noção de tempo em ambos casos deve ser nula. Rimbaud já passou uma temporada no inferno, onde ele abria asas de outros meninos em pleno prazer.

Lágrimas escorrem dos cantos dos meus olhos, pois são três e cinquenta e três, três e cinquenta e três, e meus olhos não aguentam mais ficar abertos, e muito menos ficar fechados, simplesmente não aguentam nada, é como minha paciência nos últimos dias. Estou com uma dor de cabeça de merda, desde quando eu estava na faculdade, das seisepouco às dezepouco. E aí até minha vinda para casa, das dezepouco até às meianoiteemponto. Só de mover os olhos dói. OS HERÓIS DO JORGE ESTÃO TODOS MORTOS. São três horas e cinquenta e oito, três horas e cinquenta e oito, senhoras e senhores.

Com a luz fraca e vacilante do meu celular, o olho no teto me olha no olho. Está frio agora, as paredes geladas e eu me arrependo ter ido para a cama sem camiseta, com toda certeza ficarei gripado.

São quatro horas em ponto, quatro em ponto, vocês ouviram direito, vejam bem. Na minha parede estava escrito que eu amava uma pessoa, mas ela não a vejo a tanto tempo, que seu nome jaz riscado, restando apenas eu amo. Eu amo rabiscos. O que é irônico, ao fato de que meu quarto é um caosia de rabiscos e grafites. Símbolo do Pyrate Byrån; símbolo anarquista; a letra de pela paz da cólera na parede; meu mantra secreto, parting glass, que foi alvo de muitas meditações em noites loucas e frias de insônia, como essa; uma poesia de Yeats; o cao sagrado e outras baboseiras nesse estilo.

São quatro horas e dez minutos, quatro horas e dez minuto, numa noite louca e fria de insônia, que eu poderia estar usando para meditar, colocar minha mente e idéias em ordem, mas eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo, ao invés eu escrevo essa baboseira aleatória, como se fosse algo legal, algo agradável, que meus amigos e familiares leriam, mas não é, não é, é frenético e falta a doce lapidação beat, que deixaria tolerável para leitura, mas só e a escrita suja e sem sal de um jovem de 20 anos com insônia. Porquê da insônia? Éris, Éris, diga-me.

Não tenho tido problemas, ao menos assim minto para mim mesmo, não tenho stress ou ansiedade, apenas essa coisa dentro de mim. Essa coisa que quer gritar e não fazer nada o dia todo, a não ser comer batata frita pelado numa rede. O ócio desassociado de qualquer aspecto burguês e inútil, um ócio proletário e construtivo, tanto espiritual, quanto intelectualmente. VAMOS MATAR A HUMANIDADE, E SALGAR A TERRA E POLUIR RIOS, PARA MATAR PLANETA. APENAS A EXTINÇÃO É A SOLUÇÃO. CANIBALISMO COMO MÉTODO RECREATIVO JÁ. NEM MESTRES OU DEUSES, APENAS CAOS E DESTRUIÇÃO.

Muitos bons jogadores em campo hoje, né Éder? São quatro e dezoito, quatro e dezoito e minha criatividade se esvai, senhoras e senhores. Ficarei contemplando o escuro e o frio, até o sol chegar, para talvez dormir em paz, Amém.

 

Moosemas – o fim do ano

O ano se aproxima do seu fim, 64 dias dAs Consequências, e já nos aproximamos do Caos. Hoje é dia 22 de dezembro, nessa sexta-feira será natal. Eu ando um pouco reflexivo, nessa semana, especialmente hoje. Mais niilista e claustrofóbico que nunca, claro, mas isso é bom – em algum sentido – eu consigo entender a vida, e ver a felicidade das pessoas – quando essa é vinda do coração – e simplesmente fico feliz por elas.

Essa semana tentei escrever um texto sobre Fé. Tentei escrever um texto sobre Discórdia e Anarquia também. E digitei mais duas palavras no Livro Secreto dos Amendoins. Não tenho estado empolgado para escrever, e esse texto é como um vômito, não me preocuparei em deixa-lo bonito e sem erros. Mas não vim aqui para reclamar, embora eu tenha tentado escrever um texto anti-natalino esse ano também. É mais como um: “ei, foda-se tudo, encha a cara e se divirta”.

Não me importo com sua religião. E embora pessoas de outras religiões, estejam submissas às comemorações cristãs do natal, não tenho do que reclamar sobre. O natal é a porra duma tradição ocidental, onde desde o século passado se é exaltado o consumo excessivo, em prol do mercado. Sim, de fato é, e isso deve ser combatido. A questão que fica é, como você vai combater o consumismo? Textões no facebook? Lambes no centro de Sampa? Passeatas? Exaltar o próprio ego, enquanto você grita pros favelados que eles tão errados em consumir? Exaltar o próprio ego, enquanto você grita pros riquinhos que eles tão errados em consumir?

Tá na hora de darmos um passo à frente. Palavras de ordem podem ter dado certo com vanguardas, na era vitoriana. Ninguém precisa mandar em ninguém. É fácil dizer ‘sem mestres, sem deuses’ enquanto você ordena isso, não? Leve-se menos a sério, chapa. Beba água. Fique bêbado, ria, esteja próximo das pessoas que ama. Ame.

Hanukkah, Saturnália, Dia dos Presentes, Natal, aniversário de Brian, que seja. É mais fácil reclamar da tradição alheia, ao invés de tentar implodir a coisa. Não gosta do consumismo? Divirta sem consumir, comemorações coletivistas, beba, beba e beba anti o consumismo excessivo.

Leve-se menos à sério, chapa. A revolução um dia chega, mas a insurreição começa agora. Então ligue pra mamãe, pro papai agora, se estiverem brigados, se perdoem. Vão passar o natal com suas famílias e amigos, pois é disso que se trata o espírito do Moosemas, no fim das contas, não? Amor, redenção, e anti-consumismo.

Eu ainda vou escrever o texto matando o papai noel, esse ano, mas ele vem depois do natal, ok? Eu vou aproveitar pra encher a cara e adiantar os projetos e as leituras atrasadas.

Paz e Segurança para todos vocês, irmãos e irmãs.

 

Feliz Moosemas!

RG dos Cães

Um virgem de 23 anos vivia sozinho em um canto qualquer da cidade de Brasília. Passava a sua tarde inteira a meditar e tomar chá de cânhamo, para estimular seus pensamentos e relaxar seu corpo e sua alma.

Em uma de suas meditações, ele decidiu comprar um cachorro. Um não, dois cachorros. Foi ao centro e comprou dois cachorros, filhos do capeta, também conhecidos como pinscher, filhos de crias diferentes. Quando chegou em casa, os soltou pela casa e fez um chá para meditar. Sentou-se, e tomando seu chá, e ele começou a meditar, enquanto observava seus novos cachorros.

Algo que lhe chamou a atenção, foi que um cachorro cheirava o cu do outro. E ficou observando eles, em sua cheirada mútua, e por muito se indagava o que diabos eles estavam fazendo. No outro dia, decidiu ir à biblioteca da cidade e ler alguns livros sobre o comportamento dos cachorros.

Descobriu então, que os cachorros fazem isso para tentarem se conhecer, e que assim entendiam os sentimentos, pensamentos e tudo sobre o cachorro. Voltou para a casa, e meditou sobre o que leu. Passou horas, horas e horas meditando, e chegou à conclusão que o cu do cachorro era o RG natural.

Curioso sobre o funcionamento, tirou todas suas roupas, e de quatro deixou que seus cachorros cheirassem seu cu, deu algumas risadinhas, uma vez que eles lambiam o buraco. Não obstante e satisfeito com a experiência – sem saber se seus cachorros de fato lhe conheciam – pegou um deles pela cintura, e deu uma fungada no cu do cachorro, que no mesmo momento, soltou uma rajada de merda em sua cara. Ao perceber a cagada que tinha feito, o virgem foi iluminado.

Cães a uivar

Era por volta das duas da manhã da matina – talvez três – da sexta do dia 17. Meu horário padrão para ir dormir, diga-se de passagem. Meus olhos cansados já não aguentavam manter-me acordado. Vacilava, enquanto tentava jogar uma partida qualquer, de um jogo qualquer. Terminei a dita partida, e decidi que iria dormir. Coloquei alguns Assets para baixar, e desliguei o monitor.

Com muito pesar, e já muito cansado subi as escadas do beliche, cobri-me e fechei meus olhos. Seria uma puta noite de sono, adoro dormir até tarde no sábado, sabe como é? Soltei um suspiro, e esvaziei a minha mente. Mas em algum lugar, longe da segurança de meu quarto, mas ao mesmo tempo bem próximo, era possível se ouvir um uivo. Era agudo e triste, o som partira meu coração, e provavelmente partiria de outras pessoas também, se elas o pudessem ouvir. Mas todas estavam dormindo, como se o mundo tivesse alcançado a paz mundial. Embora em algum lugar lá fora, uma alma sofria, sofria e sofria; e clamava por socorro e amparo.

Abri meus olhos, e encarei o vazio do teto, que repousava a alguns palmos de minha cara. Soltei o ar pela boca, estava frio. Lembro-me de que na cultura popular, uivos são sinais de mal agouro. Nunca acreditei na cultura popular e seus mitos. Quero dizer, não até essa maldita sexta. E lá estava eu, cético, encarando o vazio do teto, refletindo. A verdade é que o maldito uivo havia me tirado o sono.

Um calafrio subia por minha espinha. Era uma sensação estranha, como se algo estivesse erroneamente certo. Tentei me mover, mas percebi que era inútil, a única coisa ao meu alcance era o frio e o vazio de meu teto. Minha respiração acelerava, acelerava e acelerava, e quando percebi, estava em um estado misto de êxtase e hipnose.

O incômodo causado pelo uivo de alguma alma distante e solitária, me lembrou que alguns dias antes eu também não conseguia dormir, porque algo igualmente maléfico e sombrio me irritava. É fácil de criar uma imagem na mente: Demônios, como aqueles retratados em quadros de Blake, vestindo ternos, sentados em mesas com plaquinhas com seus nomes, o Ambiente dessas mesas se assemelhando aos anéis do inferno de Dante, e em algum lugar do Ambiente, um pedaço de pano verde, amarelo e azul, com pequenos adornos brancos, preso a uma haste de metal.

E no meio de todos os demônios ali, havia um peculiar. Pior de todos, eu diria. Educador Unha, era seu nome. Um nome escroto, para uma pessoa escrota, eu diria. Ele era o representante da ‘bancada satânica’, que nada mais era do que um grupo de demônios que tentavam impedir os avanços humanos, ou a liberdade. Assim como também Presidente daquele Ambiente – não lembro o nome do Ambiente, pois não sou atento ao modo organizacional e hierárquico demoníaco. Por isso, chamarei esse lugar apenas de Ambiente.

O Ambiente tinha um único propósito: votar o destino da humanidade. É como um congresso, onde os demônios se reúnem e votam como ele podem afetar o destino da humanidade, direta ou indiretamente. Alguns deles não aceitam perder – eles são demônios, afinal – e por isso sempre arranjar um jeito de ganhar. Uma prática muito comum no meio Demo-corporativista, diga-se de passagem. Uma das pessoas que não aceitam perder, é nosso querido Presidente-do-Ambiente, Educador Unha. E por mais cômico e irreal que pareça, – lembre-se que quando falamos de demônios, tudo é possível! – o Educador Unha tem diversos laços no meio demo-corporativista. Então ele é o maior puxador de tapete de seus amiguinhos demônios, e o maior puxador de saco de demônios-corporativistas.

Algumas escolhas e boicotes de Educador Unha me deixaram sem sono, por diversos dias. Ele é o exemplo mais nítido de corrupção, que eu consigo manter minha mente. Ele consegue, de alguma forma, mobilizar diversos grupos satanistas anti-corrupção. Algo que não entra na minha cabeça, e me deixa confuso. Ele pega essa camada satanista, e coloca ela contra outro grupo satanista, acusando esse grupo de corruptos, enquanto a própria bunda está suja. A verdade é que nenhum demônio dentro do Ambiente, e ambientes similares, é bonzinho. Primeiro porque o objetivo deles – assim como o dos demônios-corporativistas – é foder os humanos. Algo que humanos satanistas (tanto os azuis, quanto vermelhos), não notam. A simples existência do Ambiente e dos demônios é uma forma de coerção à liberdade humana, uma forma de oprimi-los e deles fazer de capacho.

E enquanto eu encarava o gélido e vazio teto, que repousava a alguns palmos de minha cara, eu só consegui pensar na necessidade que os humanos deveriam ter, para abolir os demônios da terra, e coloca-los embaixo da terra, para assim finalmente ser livres. Eu só conseguia pensar no crânio demoníaco de Educador Cunha, preso em uma estaca em frente ao Ambiente. E enquanto eu pensava em diversos meios de emancipação e exorcismo social, para livrar os humanos dos demônios, assim como livrar alguns humanos de seu satanismo-ideológico, o horário passava, e por fim o sol subia tímido no horizonte.

O vazio gélido do teto, e a maneira com a qual os demônios que repousavam solenemente no Ambiente me incomodavam. Minha respiração acelerava, acelerava e acelerava, e eu percebi, eu estava em estado de êxtase e hipnose. De uma forma grotesca, que me punha em reflexões sobre morte, exorcismo e liberdade. E me fez perder o sono por dias e dias consequentes.

O vazio gélido do teto, e a maneira com a qual uma alma solitária em algum lugar lá fora sofria, clamando por amparo e socorro me incomoda. Minha respiração acelera, acelera e acelera, e eu percebo que estou em um estado de êxtase e hipnose. De uma forma sublime, que me põe em reflexões sobre a morte, possessões demoníacas e autoritarismo. E me fará perder o sono por dias e dias subsequentes.

No fim, a forma com a qual os demônios (demônios-corporativistas inclusos) tratam o mundo e os humanos, e a forma como alguns humanos satanistas defendem os demônios, faz com que meu cão interior uive, uive e uive, até que as gargantas sangrem, em busca de amparo, ajuda. Em busca de que apenas seja ouvido. Deveríamos todos usar uma de nossas noites, para ouvir cães a uivar.

Pela liberdade religiosa

O que falta nas famílias e nos círculos sociais brasileiros é tolerância, principalmente tolerância religiosa. Cada um tem a maldita religião que quiser, ou mesmo nenhuma religião, se assim o indivíduo desejar. Estamos em 2015, e ainda existe hipocrisia e intolerância entre as religiões.

Esses dias eu estava vendo um muçulmano dizer, que o grupo Estado Islâmico não são muçulmanos, e apenas terroristas, e que essa comparação do EI com muçulmanos doía em sua alma, principalmente quando dizem que eles são ‘muçulmanos ruins’. Logo vieram dizer ao cara que eles são sim muçulmanos, que seguem à risca o Alcorão (o que é impossível, na minha opinião). Então esse jovem muçulmano diz: “Mas, e as cruzadas? Elas seguiam a bíblia também, porque para vocês eles não são considerados cristãos? “. E é triste pensar que esse ponto relevante foi um tiro dado ao próprio pé, pois aos montes surgiam pessoas vociferando bobagens ao cara. Acho interessante que aos cristãos é permitido negar seu lado extremo, e não aos muçulmanos. Como eu amo a internet.

Aceitem, cristianismo e suas ramificações estão longe de serem a melhor de todas as religiões, ou a mais pacífica e a que ensina melhor o respeito e o amor. Primeiro porque o livro, em um primeiro momento, retrata um Deus de uma forma na qual todos devem temer e, em um segundo momento, ele é o Deus do amor e piedade. Cristãos nunca dão a outra face, eles apenas revidam.

Enquanto eu concordo que existam pessoas que sigam o lado ‘bom’ do livro, são poucas as que fazem. Começando pelo conservadorismo, a maioria dos cristãos conservadores adoram vociferar sobre liberdade e amor, enquanto negam o aborto, pedem a redução da maioridade penal, e pior – pasmem! – pedem a pena de morte. Jesus recebeu pena de morte, e isso foi a 2014 anos atrás. Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que falam fazem. O novo testamento ensina o Amor e o perdão, coisa que é totalmente oposta ao que muitos ‘cristãos’ falam e fazem. Mas existem bons cristãos sim, pessoas como Tolstói, que afirma que não se deve resistir ao mal, usando o próprio mal.

Deve ser bem triste ouvir que um grupo como o EI pega um livro tão bonito, e interpretam de uma forma tão bárbara e escrota, como eles fazem. O Deus retratado no Alcorão é aquele que exige o respeito, mas que também respeita. E ele é o mesmo Deus cristão e mesmo Deus judaico, só muda a forma com a qual seu profeta o retratou. Mas infelizmente, o EI se nomeia muçulmano, assim como os cruzados e os caçadores de bruxa se nomeavam cristãos. E que daqui décadas, pessoas estudem esses grupos, para que isso não ocorra novamente.

Nas camadas mais jovens da sociedade, a religião que reina é a ciência. Os jovens costumeiramente enchem o peito para falar da ciência, falar sobre o mito evolucionista. Falo disso por conhecer diversos amigos e amigas, que assim o fazem – e ter feito isso um dia. Chegamos a um ponto onde a religião é mais científica que a ciência, e ao ponto de a ciência ter os mais fiéis seguidores que as religiões. A ciência provou algumas coisas, mas nunca provou a inexistência, ou existência de Deus, nem mesmo provou como surgiu o universo. Ela é uma manifestação desse belo desejo humano de entender o universo. O problema é que muitas pessoas que se dizem ‘homens da ciência’, não passam de cuzões que seguem uma teoria cegamente, sem questionar nada. Pessoas que acham que Einstein está 100% certo. Como Jane Roberts disse uma vez: “Quando acreditamos que a ciência, ou a religião tem ‘A Verdade’, nós paramos nossas especulações. Enquanto ainda se referindo a teoria da evolução, a ciência aceita o fato, sobre a existência e, portanto, qualquer especulação que ameaça essa teoria, torna-se quase herética”. Não use a ciência para contradizer argumentos religiosos, são duas coisas distintas. Ciência não deve ser religião, nem a religião uma ciência, as duas deveriam cooperar mutuamente, para o bem da humanidade.

A maioria das pessoas que usam argumentos científicos, na maioria das vezes, são ateus. Esses que já sofreram com intolerância, hoje fazem a mesma coisa que alguns religiosos faziam. Eles ainda sofrem alguns preconceitos, principalmente de famílias mais tradicionais/conservadoras. Contudo a maioria dos ateus não respeita outras religiões. São os primeiros a dizerem que os outros estão errados, que os outros são idiotas e cegos, que são levados pelas rédeas como carneirinhos. Se você é esse tipo de pessoa, você é só mais idiota ordinário, que se diz de mente aberta, um estudante das ciências, mas que provavelmente acredita no mito evolucionista, você não é muito diferente dos extremistas religiosos. Mas assim como os cristãos, sei que existem bons ateus, que são indiferentes em relação a fé alheia.

Os budistas em um geral, tentam manter uma relação de respeito e amor com o próximo, embora eu já tenha visto alguns budistas caçoarem de outras religiões. Eles, diferente das outras religiões, percebem que a busca da paz – que todas religiões pregam – depende apenas do indivíduo, que busca a paz em si próprio e consolida a harmonia na sociedade. A problemática é que alguns monges budistas, apenas se lamentavam sobre as injustiças do mundo, assim como alguns também ficavam ao lado de líderes orientais, enquanto eles cometiam graves atrocidades e violência contra a humanidade – algo natural de qualquer tipo de liderança, devo dizer.

No ocidente, essa religião é tratada como uma filosofia, ou estilo de vida. Frases inspiradoras compartilhadas no facebook, yoga, estátuas dum homenzinho careca e gordo, coisas do tipo são um certo sucesso. Budismo é bem difundido entre a elite, e mesmo que os monges não façam uma diferenciação social de seus ‘devotos’, é importante notar isso. Como toda religião, o budismo evoluiu junto a sociedade, e uma das suas ramificações é o zenanarquismo, ou anarcobudismo, que aponta semelhanças nas práticas anarquistas e as práticas budistas – especificamente do zen.

A ideia surgiu com um ensaio de Garry Snyder, onde ele ressalta o fato dos monges não adotarem uma posição contrária aos líderes-genocidas, e onde ele fala da adoção de táticas como desobediência civil, protesto pacífico e poder de voz. Garry faz uma crítica contundente, tanto ao capitalismo, quanto ao comunismo.

O Comunismo foi – e em alguns grupos, ainda é – bem desrespeitoso com a religião alheia. Talvez porque na sociedade deles, a liberdade individual estava fora de questão. Marx dizia que a religião era o ópio do povo, ideia que – espero eu – tenha mudado em diversos círculos marxistas. Os chineses enviavam monges budistas para a guerra. Imagine ser um indivíduo que decide devotar sua vida ao pacifismo e ao dharma, e ser privado dessa sua decisão por algum senhor da guerra. Uma revolução onde não há liberdade religiosa, não é minha revolução. Quando uma pessoa se converte a uma religião, por livre escolha e não tenta força-la as outras pessoas, não há porque priva-lo desse direito. Todas as religiões ensinam respeito e amor, a sociedade ensina exatamente ao contrário. Sempre dizem que a religião não deveria influenciar na política, mas tristemente deixamos a política interferir nas religiões.

E antes que levantem alguma questão sobre a laicidade do Estado, eu sou totalmente contra a proposta do Daciolo, de alterar a proposta da constituição que diz que ‘o poder emana do povo’, para ‘o poder emana de Deus’, pelo simples fato de que a devoção de uma religião vem do indivíduo e não deve, de maneira alguma, ser imposta por outros grupos de indivíduos. Isso é uma decisão individual, e não social. Embora não possamos deixar que essa decisão afete a decisão alheia.

O que infelizmente não é o caso, pois atualmente no Brasil tem surgido uma onda de ódio, contra pessoas de religiões Afro-brasileiras. Até mesmo com declaração de pastores, evangélicos, para que apedrejassem umbandistas. Ou a infeliz declaração do Datena, que disse que ateístas cometem crimes, pois não tem Deus no coração.

Uma pessoa pode ter uma religião, se assim ela quiser, assim como essa mesma pessoa pode muito bem viver sem uma religião, se assim ela desejar. Ninguém está certo ou errado. Isso não é uma questão de competição, isso é uma questão de fé: Ou você tem, ou você não tem.

Nota: Não citei o hinduísmo, por conhecer pouco da religião e do que eles pregam, mas acredito que não seja muito diferente das outras [em relação a pregar amor e paz], uma vez que Gandhi era hinduísta. Além de que não existe tantos hindus aqui no Brasil, como nos EUA e na Inglaterra, onde há um preconceito fodido contra a religião, mas a ideia se mantém a mesma da retratada no texto. Também não citei religiões mortas (os panteões gregos, romanos, nórdicos, célticos, etc), por mais que exista um ‘renascimento’ dessas práticas pagãs, seu impacto social é quase nulo, mas a ideia se mantém a mesma, em relação à tolerância. E não citei freak-religions (discordianismo, pastafarianismo, kopimismo, etc), por questões óbvias, assim como também não citei cientologia, por ser um culto e não uma religião.