Another Time and Place

Eu desci a rua que estava morta, apenas carros e seus motores, carros e seus motores, com suas buzinas altas, estridentes e ecléticas. As árvores mexiam suavemente, inertes ao mundo a sua volta, em sua paz anciã, murmurando cânticos e orações, cânticos e orações, que há muito foram esquecidas pela humanidade.

Eu vivi ali, sabia? Aquele guardião de concrete e seus olhos de vidro. É, morei ali. Logo que vim o Inferno Paulistano. Quantas e quantas vezes não ajudei meus pais a carregarem as compras, com meu 5 ou 6 anos, eles me davam as coisas mais leves, claro. Pegávamos aquele elevador pequeno e velho, que fedia perfume por conta da vizinha velha que morava no nosso andar. Mas a minha diversão mesmo eram as escadas, que no domingo à noite, após o culto, eu subia nos pulos em minhas pequenas pernas de moleque. Era eu e meu irmão, apostando corridas, não só entre nós, mas contra a mãe e o pai, que muito cansados pegavam o elevador.

Ali de frente era o ponto de táxi, onde taxistas sentavam para fofocar pelo maldito dia a fora, interrompidos pelo telefone que tocava. Atrás deles tinha um posto abandonado, já sem as bombas, apenas sua estrutura. Em um natal, ou dia das crianças, ou qualquer maldito feriado consumista, eu e meu irmão ganhamos carrinhos de controle remoto, e enchíamos o saco, fosse do meu tio, do meu pai ou da minha mãe, para que um deles nos levasse ao posto, onde pegávamos nossos carrinhos e corríamos freneticamente, no chão de concreto frio, com nossas curvas mirabolantes e nossos gritos loucos e espontâneos, loucos e espontâneos, de toda a beatitude e santidade infantil.

E eu estou aqui, parado, encarando o vazio do terreno, que um dia fora o posto. As árvores estão mais velhas e a calçada esburacada. Solto um suspiro e continuo a descer a rua. Aquela casa, por exemplo, tinha pássaros nas gaiolas, e eles cantavam toda manhã quando eu ia em direção à Thomaz Galhardo, a escola que eu fui na primeira série. Talvez cantassem por ser a única coisa que os tirava da melancolia de estarem presos, mas isso não importa mais, não é mesmo? As gaiolas estão vazias na parede, e a escola fora fechada em meados de 2008~2009.

Só tenho boas lembranças da Thomaz Galhardo, escola que não só eu, mas meu padrinho e meu pai, antes de mim estudaram. E era mágico, levar bisnaguinhas com requeijão e suco tang de morango, sentar-se em uma mesa velha, e passar a primeira parte do recreio comendo, e a segunda correndo e correndo e brincando com as outras crianças. Lá também foi a primeira de muitas vezes na qual fui para a diretoria. Talvez motivado pela TV e os desenhos que passavam, em um dos intervalos para o recreio, peguei meu tubo de cola e desperdicei em todas as cadeiras da sala, inclusive a da professora. Inocente do jeito que fui, não coloquei em minha cadeira, e meus colegas igualmente inocentes sentaram sem nem olhar. A professora mandou um bilhete na minha agenda, para a minha mãe, que no outro dia foi na escola. Não durei muito tempo naquela escola, de qualquer maneira. Um amigo meu, que tinha síndrome de Down, me empurrou num pequeno barranco que tinha na frente da escola, e eu rolei e rolei, e caí num arbusto de pequenos espinhos, e logo no dia em que tinha ido com um dos meus jeans novos – naquela época era um luxo! – Minha mãe, claro, ficou louca da vida e me tirou da escola. Mas apesar disso, o que destacava a Thomaz Galhardo era aceitar alunos com deficiência. Foi uma experiência importante ter contato com crianças que tinham deficiência, e eram da minha idade – as vezes mais velhas. Por fim, essa escola se tornou a diretoria educacional de Pirituba, mesmo sendo localizada na lapa, e não em Pirituba, mas seus muros continuam grafitados, o que é sexy pra caralho.

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