Another Time and Place

Eu desci a rua que estava morta, apenas carros e seus motores, carros e seus motores, com suas buzinas altas, estridentes e ecléticas. As árvores mexiam suavemente, inertes ao mundo a sua volta, em sua paz anciã, murmurando cânticos e orações, cânticos e orações, que há muito foram esquecidas pela humanidade.

Eu vivi ali, sabia? Aquele guardião de concrete e seus olhos de vidro. É, morei ali. Logo que vim o Inferno Paulistano. Quantas e quantas vezes não ajudei meus pais a carregarem as compras, com meu 5 ou 6 anos, eles me davam as coisas mais leves, claro. Pegávamos aquele elevador pequeno e velho, que fedia perfume por conta da vizinha velha que morava no nosso andar. Mas a minha diversão mesmo eram as escadas, que no domingo à noite, após o culto, eu subia nos pulos em minhas pequenas pernas de moleque. Era eu e meu irmão, apostando corridas, não só entre nós, mas contra a mãe e o pai, que muito cansados pegavam o elevador.

Ali de frente era o ponto de táxi, onde taxistas sentavam para fofocar pelo maldito dia a fora, interrompidos pelo telefone que tocava. Atrás deles tinha um posto abandonado, já sem as bombas, apenas sua estrutura. Em um natal, ou dia das crianças, ou qualquer maldito feriado consumista, eu e meu irmão ganhamos carrinhos de controle remoto, e enchíamos o saco, fosse do meu tio, do meu pai ou da minha mãe, para que um deles nos levasse ao posto, onde pegávamos nossos carrinhos e corríamos freneticamente, no chão de concreto frio, com nossas curvas mirabolantes e nossos gritos loucos e espontâneos, loucos e espontâneos, de toda a beatitude e santidade infantil.

E eu estou aqui, parado, encarando o vazio do terreno, que um dia fora o posto. As árvores estão mais velhas e a calçada esburacada. Solto um suspiro e continuo a descer a rua. Aquela casa, por exemplo, tinha pássaros nas gaiolas, e eles cantavam toda manhã quando eu ia em direção à Thomaz Galhardo, a escola que eu fui na primeira série. Talvez cantassem por ser a única coisa que os tirava da melancolia de estarem presos, mas isso não importa mais, não é mesmo? As gaiolas estão vazias na parede, e a escola fora fechada em meados de 2008~2009.

Só tenho boas lembranças da Thomaz Galhardo, escola que não só eu, mas meu padrinho e meu pai, antes de mim estudaram. E era mágico, levar bisnaguinhas com requeijão e suco tang de morango, sentar-se em uma mesa velha, e passar a primeira parte do recreio comendo, e a segunda correndo e correndo e brincando com as outras crianças. Lá também foi a primeira de muitas vezes na qual fui para a diretoria. Talvez motivado pela TV e os desenhos que passavam, em um dos intervalos para o recreio, peguei meu tubo de cola e desperdicei em todas as cadeiras da sala, inclusive a da professora. Inocente do jeito que fui, não coloquei em minha cadeira, e meus colegas igualmente inocentes sentaram sem nem olhar. A professora mandou um bilhete na minha agenda, para a minha mãe, que no outro dia foi na escola. Não durei muito tempo naquela escola, de qualquer maneira. Um amigo meu, que tinha síndrome de Down, me empurrou num pequeno barranco que tinha na frente da escola, e eu rolei e rolei, e caí num arbusto de pequenos espinhos, e logo no dia em que tinha ido com um dos meus jeans novos – naquela época era um luxo! – Minha mãe, claro, ficou louca da vida e me tirou da escola. Mas apesar disso, o que destacava a Thomaz Galhardo era aceitar alunos com deficiência. Foi uma experiência importante ter contato com crianças que tinham deficiência, e eram da minha idade – as vezes mais velhas. Por fim, essa escola se tornou a diretoria educacional de Pirituba, mesmo sendo localizada na lapa, e não em Pirituba, mas seus muros continuam grafitados, o que é sexy pra caralho.

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Blues da Insônia

Queria escrever um blues, que tivesse uma pegada suave e leve na leitura, e fosse suave e leve aos ouvidos. Quem sabe algo grandioso e que colocasse pessoas em um estado louco contemplativo, e se inspirariam para escreverem outras mais e mais coisas, apenas para minha vã mente de escritor fracassado se sentir parte de algo, se sentir útil ao mundo, poder dizer, “Ei, ah lá, a mina ali se inspirou no meu texto para escrever essa música”, está certo que ela teria uma vida muito melhor que a minha. Talvez ela se condicionaria e jogaria de acordo com o sistema, logo seria mais suave para ela.

Já eu, eu preciso ser o rebelde, a lâmina no escuro, que ajuda sem ser vista. Ou talvez tudo isso seja uma paranoia louca, daqueles momentos da vida que eu nem me entendo.

Tic tac, são três horas e trinta e três minutos, senhoras e senhores, Dave Van Ronk canta de forma sublime Saint James Infirmary, devo dizer que não ouvia versão alguma dessa música há anos. Let her go? God bless her. Canopos não está visível hoje, temo informar, senhoras e senhores, e aparentemente nem a lua, que deram espaço para nuvens espessas que adotam uma cor marrom com a poluição luminosa paulistana. Mas não tem problema algum, senhoras e senhores, amanhã tem mais?

Eu espero que não. São três e trinta e seis, repito, três e trinta e seis da manhã, qual o maldito motivo de eu estar acordado essa hora da noite? Eu não sei! Mas quando eu descobrir eu os informo! Meus olhos já estão pesados, e pedindo arrego, mas quando eu os fechos, dói. Como se algo os corroesse, oh deusa, oh deusa, deixe-me dormir, a imploro. Dave Van Ronk, Dave Van Ronk, porque diabos sua voz é um misto de frutas batendo ao leite no liquidificador, com estática da televisão e com minha cachorra acordando da anestia em plena agonia? E mais, porque diabos sua voz consegue ser tão melódica e agradável, a ponto de trazer-me a plenas lágrimas? Seria essa minha falta de sono? A culpa é sua? Ou você é um efeito da minha insônia?

Senhoras e senhores, senhoras e senhores, são três horas e quarenta e dois minutos da matina, retificando, três horas e quarenta e três da matina! Bom dia Vietnã, diria O Cara, se ele não estivesse morto. Consigo ouvir uma certa inquietação no quarto dos meus pais, e meu irmão se revira lá na sala, minha cachorra quieta, mas logo se coça e toca o sino que prendemos em sua coleira, é cômico, vos asseguro.

Se eu tivesse asas, se eu tivesse asas, provavelmente ficaria parado o dia todo e ocasionalmente a bateria, só pela piada. Mas aqui: não me interpretem mal, não me refiro a asas da forma que Rimbaud se referia. Me pergunto onde está Rimbaud nesse momento? Na África bancando o pederasta pervertido? Ou em algum buraco ou vala qualquer em algum lugar qualquer da França? Almôndega almôndegas almôndega.

São três e cinquenta em ponto, senhoras e senhores, e hoje mais cedo, lá para uma hora da matina, ouvi um tiro ao longe. Fiquei com certo medo, devo dizer, mas um minuto depois veio outro tiro, então minha alma se acalmou. Ainda são três e cinquenta, três e cinquenta, será que o tempo decidiu parar, tipo do nada? Será que ficarei aqui, parado, estagnado? Seria assim o inferno? Ou o céu? A noção de tempo em ambos casos deve ser nula. Rimbaud já passou uma temporada no inferno, onde ele abria asas de outros meninos em pleno prazer.

Lágrimas escorrem dos cantos dos meus olhos, pois são três e cinquenta e três, três e cinquenta e três, e meus olhos não aguentam mais ficar abertos, e muito menos ficar fechados, simplesmente não aguentam nada, é como minha paciência nos últimos dias. Estou com uma dor de cabeça de merda, desde quando eu estava na faculdade, das seisepouco às dezepouco. E aí até minha vinda para casa, das dezepouco até às meianoiteemponto. Só de mover os olhos dói. OS HERÓIS DO JORGE ESTÃO TODOS MORTOS. São três horas e cinquenta e oito, três horas e cinquenta e oito, senhoras e senhores.

Com a luz fraca e vacilante do meu celular, o olho no teto me olha no olho. Está frio agora, as paredes geladas e eu me arrependo ter ido para a cama sem camiseta, com toda certeza ficarei gripado.

São quatro horas em ponto, quatro em ponto, vocês ouviram direito, vejam bem. Na minha parede estava escrito que eu amava uma pessoa, mas ela não a vejo a tanto tempo, que seu nome jaz riscado, restando apenas eu amo. Eu amo rabiscos. O que é irônico, ao fato de que meu quarto é um caosia de rabiscos e grafites. Símbolo do Pyrate Byrån; símbolo anarquista; a letra de pela paz da cólera na parede; meu mantra secreto, parting glass, que foi alvo de muitas meditações em noites loucas e frias de insônia, como essa; uma poesia de Yeats; o cao sagrado e outras baboseiras nesse estilo.

São quatro horas e dez minutos, quatro horas e dez minuto, numa noite louca e fria de insônia, que eu poderia estar usando para meditar, colocar minha mente e idéias em ordem, mas eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo, ao invés eu escrevo essa baboseira aleatória, como se fosse algo legal, algo agradável, que meus amigos e familiares leriam, mas não é, não é, é frenético e falta a doce lapidação beat, que deixaria tolerável para leitura, mas só e a escrita suja e sem sal de um jovem de 20 anos com insônia. Porquê da insônia? Éris, Éris, diga-me.

Não tenho tido problemas, ao menos assim minto para mim mesmo, não tenho stress ou ansiedade, apenas essa coisa dentro de mim. Essa coisa que quer gritar e não fazer nada o dia todo, a não ser comer batata frita pelado numa rede. O ócio desassociado de qualquer aspecto burguês e inútil, um ócio proletário e construtivo, tanto espiritual, quanto intelectualmente. VAMOS MATAR A HUMANIDADE, E SALGAR A TERRA E POLUIR RIOS, PARA MATAR PLANETA. APENAS A EXTINÇÃO É A SOLUÇÃO. CANIBALISMO COMO MÉTODO RECREATIVO JÁ. NEM MESTRES OU DEUSES, APENAS CAOS E DESTRUIÇÃO.

Muitos bons jogadores em campo hoje, né Éder? São quatro e dezoito, quatro e dezoito e minha criatividade se esvai, senhoras e senhores. Ficarei contemplando o escuro e o frio, até o sol chegar, para talvez dormir em paz, Amém.

 

Bomba, bomba, homem-bomba, bomba, bomba, bomba

Americano é um bicho paranoico. E por americano me refiro aos norte-americanos, nascidos nos EUA. Eu fui para os Estados Unidos uma vez, e devo dizer que não foi a melhor experiência da minha vida. Primeiro pelo fato de que a volta para o Brasil foi um verdadeiro inferno. Antes de entrar em maiores detalhes, devo contextualizar vocês de quem e como sou, tanto físico, como mentalmente: Tenho 23 anos, sou moreno e tenho uma barba grande e bagunçada. E pelos deuses, eu sou arrogante, cabeça quente e sarcástico pra caralho.

Ironia do Destino ou não, fui aos EUA para comprar coisas, e estava de olho em um relógio, com um design mais moderno e bizarro, que acabei por comprar. Na hora de entrar no aeroporto, passei pelo detector de metal, minha bolsa não. Vou descrever o diálogo em português, para melhor entendimento de todos, mas prosseguiu dessa maneira.

“Senhor, o que seria isso? ”, perguntou uma guardinha, enquanto revirava minhas cuecas, CDs e livros, para tirar o lindo relógio lá do fundo. “Obviamente não é uma bomba”, eu repliquei com meu singelo sarcasmo. “Bomba?! ”, alguém atrás de mim gritou histericamente, e isso se alastrou rapidamente, como a fumaça das torres gêmeas no onze de setembro de 2001. Logo, todos gritavam e eu estava no chão. Alguns guardinhas gritavam comigo, “ONDE ESTÁ A PORRA DA BOMBA?! ”, e eu replicava: “NO CU DA SUA MÃE, DE TANTO QUE EU ME IMPORTO”. Aí entra um fadeout, provavelmente porque devem ter me dado um murro, tão forte que só o cacete.

Corta a cena e entra um fade in, eu estou sentado numa cadeira, com as mãos algemadas na costa, levando tapinhas na bochecha direita, enquanto uma outra pessoa abria um dos meus olhos e apontava uma lanterna para ele. “Ele está acordando”, disse a moça que segurava a lanterna e o meu olho. O cara parou de dar tapinhas. Chacoalhei a cabeça e abri os olhos. Na sala só nós: eu, o cara, e a mina. O cara era negro e tinha um cavanhaque maneiro, que dava a ele um ar de durão. Ela era asiática, – chinesa? – usava óculos e tinha cara de intelectual. Então ela perguntou:

“Onde está a bomba, senhor? ”, com uma voz suave. Eu, ainda meio tonto, respondi “Não tem nenhuma bomba, senhora”, com um tom sarcástico, dando ênfase no ‘senhora’. O cara não ficou nenhum pouco feliz com isso, aparentemente. Ele bateu as duas mãos na mesa, se apoiando e disse: “Não banque o engraçadinho comigo, camarada”. Aí que eu saquei a deles, é a policial boa e o policial malvadão. “Tenho cara de palhaço pra brincar com você, chapa? ”, repliquei, pedindo o tapa que veio logo em seguida.

“Eu estou tentando te ajudar, senhor, você só tem que colaborar comigo”, disse a moça, como se tivesse saído de um filme policial clichê dos anos 80. Maldito seja os anos 80. “O quê? Tão brincando de policial bom e policial mal? ”, um tapa, “Tá, já entendi. Mas deixa eu deixar claro: Não tem bomba alguma”, outro tapa, “Sarcasmo, Sarcasmo! Eu estava sendo sarcástico! ”, gritei, virando a cara esperando outro tapa, que veio quente, “Olha pra mim, eu sou um bobalhão, eu não tenho nenhuma bomba”, esse tapa fez eu cair no chão, com cadeira e tudo, já que estava algemado com a mão nas costas.

“O que vocês querem de mim? ”, perguntei, quase chorando. “Onde está a porra da bomba?! ”, gritou o cara. “Não banque o engraçadinho comigo”, eu disse abrindo um sorriso sarcástico. Tudo bem, falando agora, eu entendo que eu estava pedindo para levar uns tapas. O que de fato aconteceu. Por mais horas e horas. A moça dizia que queria me ajudar, o cara dizia que eu estava brincando com a cara dele, e eu pedindo tapas abertamente do cara. Como não amar os EUA?

Alguém, então, bateu na porta. Meu nariz sangrava, bochechas inchadas. A chinesa abriu a porta, esticou metade da cabeça para fora. Alguém sussurrou algo para ela. Ela fechou a porta, abriu um sorriso sem graça em minha direção e disse, “peço desculpa por tudo, senhor, ficamos sabendo que tudo não passa de um mal-entendido”, “sério? Não me diga. Eu devia tê-los avisado antes, não é mesmo? ”. O cara veio com um pano, estancar o sangue do meu nariz, com um sorriso amarelo e sem graça. A moça continuou: “a perícia chegou ao laudo, de que a suposta bomba era na verdade um relógio”. “Se vocês tinham o objeto, porque me perguntaram onde estava a bomba? ”, eu indaguei, soltando alguns gemidos de dor. “Procedimento padrão”, sorriu o cara.

Conferi minhas coisas, tendo certeza que tudo estava de acordo, para evitar que algo tinha sido levado de ‘evidência’. Eles me colocaram no próximo voo para o Brasil, na primeira classe, o que não dava muita diferença, pois beber champanhe ou uísque com a cara inchada, e cheia de feridas não é uma boa. Me acordaram no meio do voo, porque supostamente eu estava dizendo “bomba, bomba, bomba, homem-bomba, bomba, bomba, bomba”, enquanto dormia. Mas essa, meus amigos, é uma história para outra ocasião, não é mesmo?

Eu odeio Sexta-Feira e a maldição do Kataguiri

Eu odeio Sexta-Feira. Quem me conhece já deve saber. É mais uma questão de subversão de valores, mas bem, eu de fato odeio sexta-feira. Começando pelo fato de que toda sexta tem esse lance de Happy Hour. Todos felizes. Longe de mim ser o caracinza que quer todos tristes, claro.

Eu gosto mais das segundas, são mais pacíficas e calmas, e todos estão confusos, sem saber o que ocorreu no dia anterior. Isso é bom. Eu gosto do Sri, afinal. Acho importante as pessoas ficarem confusas, faz parte do dia a dia nessa sociedade louca. Vejo o Happy Hour como um fato alienante, é uma maneira com a qual as pessoas justificam o alcoolismo, após uma semana de trabalho intenso. Se as pessoas não tivessem que trabalhar, não haveria esse problema, claro, mas longe de mim bancar o Black e falar sobre a abolição do trabalho, claro.

Vou retratar nesse texto os eventos da sexta-feira dia 25 de setembro de 2015.

O dia começou do mesmo jeito, sabe? Alarme tocando, e minha mão tocando tudo, menos o celular. Derrubei algumas coisas no chão, xinguei, peguei o celular e desliguei o alarme. Virei para o lado e dormi. Depois de meia hora, tudo se repete. 7h40, 8h10, 8h40, 9h10, 9h40, 10h10, 10h40, 11h10, 11h40, 12h10. Geralmente acordo umas 10h10, e vacilo entre acordado e dormindo, até umas 10h30. Não nessa sexta. Nessa sexta eu acordei eram 12h30, depois que todos alarmes tinham tocado, e não tinha mais nada para derrubar no chão. Me sentei na cama, e olhei para o olho no teto. Eu me sinto desconfortável olhando as pessoas nos olhos, é como se elas pudessem ver minha alma. Mas é só o teto do meu quarto. Eu olho para ele, ele olha para mim, a gente se entende, eu me levanto e vou para o banheiro.

Tomo meu banho, me visto. Desço as escadas, minha cachorra está deitada no sofá, esperando minha mãe desde ontem. Peguei meu celular para ver notícias da mamãe. Meu pai disse que ela operou às 7h, e que às 10h havia terminado e tudo estava bem. Pedi que ele mandasse um beijão para ela e joguei ele em cima da poltrona. Fui até a cozinha, fiz meu ritual diário para o café. E enquanto a cafeteira fazia o café, eu pensei: “caralho, olha o tamanho dessa louça, tenho que lavar essa bosta antes que meus pais voltem”. Despejei o café na caneca, açúcar, enchi minha garrafa com água, e fui para o computador. Muito para fazer, pouco tempo para fazer.

Sentei na cadeira do computador, pressionei o botão, beep, digitei a senha. Abri o facebook, para receber notícias das pessoas. Marcaram reunião pelo facebook, ‘coisa de meia hora’. Três horas depois estávamos brigando sobre uma decisão. Falei que iria resolver isso com o professor apenas, para evitar desgaste da galera. Eu estava puto, devo admitir. Mandei uma mensagem para o professor, marcamos às 18h a reunião. Cheguei lá às 18h30, e fiquei parado na porta esperando o professor descer. O professor estava lá embaixo, como é de se imaginar.

Desci lá para as 19h, professor puto. Fomos ao Lab, professor deu a aula dele. Eu não fiz nada da aula dele, pela deusa, eu estava sem cabeça para aquilo. Eu deveria ter ido embora, mas fiquei lá, parado, sem fazer nada, apenas tentando conversar com o professor no fim da aula, acertar as coisas. Acredito que o grupo também pensava assim.

No fim da aula, fiquei com aquela minha postura sarcástica, cínica e infantil. Acontece sempre que estou estressado ao extremo. Professor sentou com a gente, trocamos uma ideia, nos acertamos e fomos embora. E foi aí que o meu dia debandou, por mais bosta que ele já estivesse.

Chegando ali perto no Melts Burguers & Beers, vi um branco cabeludo, ajeitando o cabelo. Na hora pensei, “Puts, tem cara de idiota”. Ele parou, e de traz dele surge Kim Fucking Kataguiri. Eles estavam conversando. Eu olhava para a cara do Kim com cara de perplexo. E ele olhou para mim como quem pensasse “Puts, tem cara de idiota”. Eu só consegui pronunciar, “Puts, o idiota do Kataguiri”, que saiu como um sussurro, por conta da barulhenta avenida liberdade. Parei de frente do Melts, puxei o catarro e o cuspi no chão, para tentar afastar a zica.

Se a lei de Murphy me ensinou algo, eu provavelmente não devo ter aprendido nada. Da Liberdade à Sé, da Sé à Barra. 22h45, vou para fila do ônibus. Dou uma checada no celular, dois ônibus, um seguido do outro. Pulei para a fila do outro busão, que sairia às 23h15. Por volta das 23h10, o coordenador dos ônibus da linha chega, e diz que o ônibus tinha batido na Francisco Matarazzo, e só teria o das 23h40.

Quem é de sampa sabe, na sexta estava tendo show da Katty Perry, e os fãs começaram a sair lá para às 23h30, chegavam ali na Barra fazendo uma zona, gritando e coisas do tipo. Jogando capas de chuva no chão. Eu até ficaria ok com isso, existe gente desrespeitosa pra caralho no mundo. Mas hoje não era meu dia, briguei com minha equipe e passei perto do Kataguiri. Essa saída do show fez com que o ônibus chegasse apenas às 00h10 na estação. Saindo logo após a última pessoa da fila embarcar, eu fiquei extremamente puto com isso, quero dizer, fiquei mais puto ainda. Ali pela lapa com aquela balada na guaicurus, ficamos quase 20 minutos parados, por conta de um bando de otário achando que rua é festa.

Lá para as uma hora da manhã, eu estava em casa, feliz? Não, nem um pouco. Mas fiz um chá de camomila, e tentei esquecer meus problemas por uma noite. E embora o dia tenha sido um dos piores de minha vida, eu nunca dormi tão bem assim – até acordar assustado no outro dia, mas isso é uma outra história, para outro dia.

Pitangueira Blues

Eu não tenho escrito há um tempo, salvo o texto sobre a RU1D0, que é mais sobre algo, do que um texto livre. Livre é a palavra. Gosto de dizer que escrevo com a alma, caso contrário eu não estaria escrevendo, apenas organizando palavras em um sentido lógico. Talvez por isso meus textos sejam caóticos: Eu apenas organizo palavras.

Não escrevo há muito tempo, e ninguém quis tocar no assunto, nem mesmo eu. Não que alguém ligue, claro. Comentei com o Tebas que não escrevo com minha alma, desde a morte do Rei do Blues. Considero um dos melhores textos que escrevi, assinei o texto com um pedaço da minha alma.

Não sei porque escrevo esse texto agora. Prazer? Dúvida? Desabafo? Insensatez? Porra, eu estou sentado no banco preferencial do metro, enquanto as pessoas me olham.

Meu iPod sumiu, não ouvi música alguma o caminho todo. Nada de blues, ou jazz, ou folk, ou funk, ou rock, para acompanhar o ritmo frenético e a falta de educação das pessoas do Inferno Paulistano. Vim lendo uma coletânea dos diários de Kerouac. Talvez isso tenha me estimulado a escrever algo. Nesse tempo que não escrevi nada, tentei escrever um ou outro ensaio político, todos largados pela metade, com uma indiferença misantrópica que adquiri da sociedade. Talvez porque eu tentei escrever direto no computador, e o meu Blues, o meu Caos, estão na ponta da minha caneta.

Privar-me do meu blues, jazz, folk, funk e rock diário, me trouxe o blues aos olhos, as narinas, ao sentido. Olhei a minha volta e perguntei, “Mas que porra de cidade é essa? ”, e não tinha ninguém lá para me responder, todos estavam ocupados demais organizando suas vidas. Eu queria dizer que eles teriam os próprios Blues, Jazz e Bebops para viverem, mas são todos organizados e complexos. O Blues, o Jazz e o Bebop são, invariavelmente, o som do caos, da vida, porra, do caos da vida! Suba em um prédio alto, coloque Calloway, Gaillard, B.B. King, Coltrane, Screamin Jay, e você entenderá o significado da vida na sociedade.

Como todo bom paulista, eu não entendo a vida do paulistano. Paulistano não presta atenção para onde anda, podem até desviar das pessoas, mas não prestam atenção para onde. É algo mecanizado, pré-definido. Eu me acostumei a esse meio de vida, ando diariamente mecanizado. Será que o meu amado e caótico blues é o motivo disso? Ou será a chegada da primavera o motivo?

Só sei que hoje mais cedo, após descer do ônibus, indo em direção à estação do trem, percebi que naquele caminho que percorro há um ano tinha uma pitangueira. Parei. Um otário apressado trombou em mim, mostrei o dedo mágico para ele, que saiu apressado xingando. Estiquei o braço e peguei uma pitanga. Ela tinha um tom vermelho alaranjado. Fechei a mão e espremi a pitanga, joguei no chão, junto com outras pingas que caíram naturalmente. Peguei uma, coloquei na boa e fiquei brincando com a semente na língua. Continuei meu caminho, sorridente, cantando um blues que tranquilizava minha alma.

Sensacionalismo Eleitoral

Esses dias, enquanto olhava para aquele objeto de silício, plástico e vidro. Vou lhes dizer, meus amigos e amigas, que eu senti uma leve saudade de telejornais sensacionalistas. Por isso eu me coloquei de frente a esse objeto, de plástico, vidro e silício. E lá estava Luan, nosso querido apresentador sensacionalista, com seus cabelos penteados para trás, com o terno e gravata pretos e a calça risca a giz. Os óculos não estavam tão caretas, dessa vez. Era algo mais moderninho, coisa de pessoas em crise de meia idade, sabe como é, não?

A verdade é que ele estava falando algo tosco – pasmem. Era algo sobre redução da maioridade penal, e ele cuspia na câmera, enquanto falava. Ele não fazia isso antes, será que ele teve um derrame, ou algo do tipo? Não. Desculpa, não iriei brincar com isso, pessoas que sofreram derrame não devem ser comparadas aos apresentadores sensacionalistas, é crueldade demais com elas ser comparado a um lixo televisivo desses.

Eu tive esse ataque nostálgico, de assistir merda sensacionalista, porque fiquei sabendo que o Luan ia concorrer à prefeitura do Inferno Paulistano. Eu ri pra caramba, porque a primeira coisa que eu pensei foi no primeiro decreto dele, de que toda criança deveria ganhar um sorvete para dar uma chupadinha, para relembrar aquele episódio da criança e do sorvete. Ou ele provavelmente criaria campanhas para reforço de estereótipos caipiras.

Mas agora eu via esse buldogue de óculos hipster, cuspindo na câmera, enquanto proferia alguma coisa estúpida e cheia de ódio. Devo dizer que eu gostava mais dele, quando ele explorava a desgraça alheia para ganhar dinheiro*, mas agora ele explora a desgraça alheia, para reforçar pontos de vista idiotas e retrógrados.

Ao que parece, o nem-mais-tão-querido Luan agora era mais um político: fala merda e todos abaixo dele são plebe. Embora, convenhamos, Luan nunca tenha sido humilde, sempre sendo um cuzão, ele agora tenta forçar seus pontos de vista em cima dos outros. Engraçado que eu me lembrava dele falando que todo político era ladrão, de que ele não faria parte dessa laia de corruptos ladrões, talvez por isso eu tenha dado risada, quando vi que ele anunciara candidatura à prefeitura do Inferno Paulistano.

A questão é: Será que alguém votará no Luanzinho? Será que alguém vai ter a coragem de tirá-lo do telejornal, para perdermos a nossa principal diversão? Não, eu acredito que não. Não votem no Luanzinho em 2016. Não votem em ninguém, fiquem em casa tomando um geladinho de abacaxi com couve, seja feliz!

 

*Nota do autor: Antes de me apedrejarem, eu fui sarcástico, e não apoio qualquer tipo de exploração, que esses abutres televisivos usam para ganhar dinheiro, se você conhece meus textos sobre sensacionalismo, sabe muito bem que eles não passam de críticas e situações absurdas, para ofender esse tipo de prática que, infelizmente, é muito recorrente nas televisões do mundo.

Hoje o dia começou meio Blues…

Não sei dizer, hoje o dia começou meio blues. Eram umas oito horas, quando meu alarme começou a soar, e eu o desligava, e essa brincadeira foi até mais ou menos umas 9h40 da manhã. Tenho um alarme a cada 20 minutos, das oito até o meio do dia, embora eu sempre acorde às 9h, nunca se sabe quando irei precisar dos outros.

A primeira coisa que fiz, quando desliguei o alarme às 9h40, foi pegar o celular. Abri o Whatsapp, um amigo estava falando que odeia os comentários do G1, eu dei risada e falei que sentia o mesmo com os comentários do Tecmundo (Ele trampa lá). Eu tinha pego o bonde andando, os caras ficaram conversando a madrugada inteira, eu não queria ler o log.

Abri o app ‘notícias e clima’ da google, lá tinha alguma matéria com ‘Dilma’ no título, simplesmente pulei, porque não gosto da presidente, e muito menos das pessoas que tentam difamar ou glorifica-la, simplesmente não me interessa. A notícia seguinte fez meu coração bater como um martelo, voltei naquele chat do whats e comentei a notícia, e mandaram eu ler o log, eles estavam reclamando dos comentários dessa notícia no G1.

A verdade é que ele se foi, e Lucille vai ficar lhe esperando chegar em casa à noite, sozinho, e vai ficar esperando tu pega-la e começar a toca-la, fazendo sons engraçados que você achava legal.

Mas tudo bem, ele se foi, mas ele é eterno, o jeito frenético como ele e Lucille se engajam e dançam e encantam todos a sua volta, sempre foi predestinado a ser eterno, e eu não tenho dúvidas, de que hoje em diante, esse jeito alegre, diante da triste, será eterno. Eles ensinaram, e ainda hoje ensinam muita coisa, se você está disposto a absorver esse conhecimento. E provavelmente continuarão a ensinar, nunca é tarde demais.

Uma coisa que eu aprendi com ele, é que o Tempo é um Ladrão, que quer roubar os seus amanhãs e deixa-lo no vazio de ontem. Ele já dizia isso em 1982, e eu só fui ouvir 31 anos depois. Por isso devemos valorizar cada minuto, e não deixar um minuto sequer escapar, porque o Tempo é um maldito ladrão.

Sua pegada suave e ágil, sempre me influenciou, e sempre influenciará. Sempre influenciará minhas poesias, sem o apoio de seu Blues, talvez eu nunca veria a cidade, como eu vejo em Poesia Urbana, talvez a Poesia Urbana e Outros Poemas Caóticos fosse uma coisa totalmente diferente, uma poesia sem blues.

Hoje o dia acordou meio Blues, e é duro de saber que o Rei do Blues não está mais entre nós. Ele provavelmente está em um lugar melhor agora, e um dia espero andar com o Rei, pois sei que nesse momento ele deve estar sentado em algum lugar, junto a Bobby Bland, Louis Armstrong e Robert Johnson, tocando um Blues cósmico. Hoje à noite as estrelas estarão brilhando, de braços abertos para ele. Hoje haverá um concerto no céu.