Paredes

As paredes dessa cidade são neutras. Eu costumava olhar as paredes de Sampa, e pensar nas histórias ali contadas. Pichações, grafites, sangue, mofo, vômito, mijo, coisas simples, que diziam tudo sobre aquele lugar. As paredes da Augusta, cheias de pichações, misturadas a grafites e vômito, mostravam um ambiente onde as pessoas se encontravam para se divertir. Beber, muitas vezes além do necessário, aliás, na maioria das vezes além do necessário. Todos deixavam suas marcas, com salves aqui, ou mesmo seus nomes como pixo seco e puro. Aqueles prédios cinzas do centro da cidade,rasgados pela tinta preta, escritos “Aqui passou seu pai dançando”, ou alguma bobagem assim, sem sentido para aqueles que passam aqui. Talvez nunca foram gravados ali para ter algum sentido, só pra registrar um momento. Gritar entre as paredes frias e úmidas, da cidade de corações frios e olhos úmidos.
As paredes dessa cidade são neutras. Que histórias teria uma cidadezinha no interior do estado teriam pra contar? As suas paredes são limpas, sem grafites, pichações, vômito, mijo ou sangue. A única coisa que ela tem são tintas secas e mofo. O uso abusivo de amarelo e branco, traz um tom mais vivo à essa cidadezinha, suas estruturas da década de 40, 50 ou 60, mostram uma cidade que não parou no tempo, mas queria. Na cara de seus velhos, vemos um certo remorso dos avanços tecnológicos. Carros, carros e carros, muitos carros em suas ruas. Mais carros que pessoas. Seus velhos, que atravessavam a cidade com o pé na terra, ralando a sola de suas botas e botinas.
Ou esse sou apenas eu, carregando uma imagem bucolista do que essa cidade deveria ser, mas não é. Eu voltei, para essa terra na qual nasci, por isso: bucolismo. Eu vivi e cresci no seio gelado da grande São Paulo, onde as pessoas não tem ou desejam bom dia.
Quando vim para essa terra, que não sei se posso dizer que volei, eu olhei para o vasto céu, escuro e cheio de estrelas, e pronunciei para mim mesmo “Óró Sé do Bheatha Bhaile”. Uh-rá, bem-vindo de volta à casa? Bem-vindo de volta à terra dos velhos; bem-vindo de volta à terra das memórias das quais você nunca teve; bem-vindo de volta à terra que nunca se adaptou com o tempo; bem-vindo de volta à terra onde a tecnologia funciona de um jeito estranho, como se não pertence àquele lugar.