Sinto-me mais burro

Eu tenho me sentindo mais burro do que um dia já fui. Não sei dizer porque, mas tento entender, e o que você lerá a seguir talvez tenha uma conclusão, ou não. Nunca fui do tipo que responde questões, mas do tipo que faz mais perguntas. Isso talvez seja parte do problema, mas não me limitarei a essa linha de pensamento.

N’outro dia eu estava conversando com um amigo, que também é escritor e em seu próprio mérito um desenvolvedor de jogos – embora nunca tenha jogado nada dele, rá! – e nessa conversa eu disse a ele como eu me sinto mais burro, coisa que cheguei até a mencionar com a médica da cabeça n’outro dia também, mas a gente já chega lá.

Eu disse a ele “sei lá, Mat, eu ando me sentindo meio burro. Mais burro do que já fui. Tipo, antes eu conseguiria conversar contigo e dissertar sobre o absurdismo de Camus, e como isso tem estado mais claro nos dias de hoje, mas se hoje eu tentasse, provavelmente não fosse tão produtivo”. Citei Camus por dois motivos, o primeiro porque é algo que eu tenho tentado reler recentemente, sem muito êxito. O segundo motivo, porque eu já conversei com ele sobre o assunto, numa época que eu tinha emplacado um combo absurdista de ler O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, e tudo que eu fazia tinha um dedo de apontar o absurdo nas coisas do dia a dia. Na época eu criei um ‘jogo’ – que não era de fato um jogo, mas não entremos num debate acerca do que constitui um jogo, eu vi isso uns 3 semestres seguidos na faculdade, e cada semestre uma apresentação diferente do que pode ser interpretado como um jogo, esse aposto ficou muito grande aaaaaaaah – chamado “O melhor RPG de Comédia já feito no Ace”, lançado no dia 20 de dezembro de 2012, e ele foi escrever um dissertação – igualmente cômica – de como o jogo era uma metáfora para o mito de sísifo, – quote – Como no mito de Sísifo, somos convidados a rolar a pedra eternamente como maldição pelos jogos de humor que criamos. Mas desistir será a solução? Não. – end quote -. A resenha dele foi um pouco tardia, no começo de 2014. Mas ainda assim, acabei por conversar com ele sobre o assunto e falamos sobre o estado deplorável das comunidades makers e tudo o mais, vocês sabem como é.

Ele então disse “Pô Dias, cê não acha que isso pode ser um reflexo de você não estar praticando tanto debate? ”, e como eu respondi a ele, pode sim. Eu não tenho debatido mais sobre filosofia, e sempre que eu debato eu acabo, 1) ou fazendo meu argumento muito confuso, onde a pessoa não entende, 2) ou eu encho de informações que as vezes são irrelevantes e eu mesmo me perco em meu argumento – MALDITOS APOSTOSSS!!!!!

A médica da cabeça disse que a maldição da minha geração – e das gerações que estão nascendo agora, caso a situação não mude – é que temos um acesso muito grande da informação, mas não conseguimos condensar todas essas informações. E isso deixou o nosso pensamento muito acelerado, milhares de vezes mais acelerado que a das gerações que nos antecederam. Segunda ela, o fato de eu não escrever em quantidades grandes se dá por isso, pois meu pensamento é muito rápido, e a cada palavra que eu digito, eu já tenho as outras 5 pra frente já planejadas na minha cabeça – agora pense nisso como um leitor, onde sua leitura é mais devagar, e o texto já está todo na sua frente, e conforme você lia que meu pensamento está sempre a frente, até mesmo na frase que faz essa afirmação, eu já pensava nesse aposto gigante, que provavelmente nem pode ser considerado um aposto – e que isso dificulta muito as coisas. Meus textos, nos quais eu escrevia com facilidade e nem revisava – BOY OH BOY, a qualidade daqueles textos eram um lixo – por mais que houvessem erros, eles tinham uma certa linha de coerência, que daria para a/o leitor/a entender o que estava escrito, apesar dos apesares.

Eu sinto que na minha escrita hoje existe uma influência da Geração Beat – coisa que eu já carrego desde 2013, aliás, mas – que faz com que eu cuspa meu texto na tela, por meio de meus dedos no teclado. Eu encho de apostos, seja por vírgulas ou separados por travessões (as vezes usando parênteses), mas também há um ritmo corrido, como se eu estivesse fodido da cabeça – não que eu não esteja – e que coloca tudo o que eu quero falar e mais um pouco nas palavras, usando palavras simples, mas com usos que são diferentes do costumeiro. Não sei dizer. É como se eu pegasse as piores partes de big sur, que são corridas e cheias de ideias, onde Jack começa falando de algo, aí entra em um aposto de 40 linhas para falar dos sentimentos dele acerca do assunto, ou até mesmo para elaborar mais o assunto – algo que poderia ser facilmente digerido sem o aposto, não é mesmo leitor/a?

Talvez esse estilo slacker mais caos e confusão discordianos mais neoísmo mais as minhas influências já antigas e as vezes quase esquecidas, mas ainda sim parte das minhas raízes, do punk rock. É como se cada parágrafo eu tentasse manter um ritmo de nazi punks fuck off, com uma prosa requintada e pomposa de Rimbaud ou Oscar Wilde.

Falando em Rimbaud, é um exemplo que eu acabei por usar com o Mat e com a médica da cabeça. Eu li Rimbaud em 2012, eu estava no primeiro ano do ensino médio. Peguei um livro dele de poesias diversas e com Uma Estação no Inferno. Chapa, se na época você me perguntasse, eu provavelmente recitarei uma das poesias e ainda diria minha interpretação acerca do que estava escrito ali. Na terça-feira dessa semana mesmo (02/05/17) eu peguei para reler Uma Estação no Inferno, e enquanto eu estava deitado lendo, passando meus olhos sobre aquele texto, eu só conseguia pensar que RIMBAUD ESTÁ MORTO E ENTERRADO EM ALGUM LUGAR DA FRANÇA, e que isso me deixa(va) desconfortável, porque a prosa e poesia dele são infinitas e continuaram a apoiar nossa classe e nossa luta muito após eu morrer, e até mesmo quando perdemos a batalha final e que toda esperança for perdida para tiranos e capitalistas, a prosa dele vai fazê-los dormir desconfortáveis, pois saberão que isso um dia será a faísca que vai acender o pavio. Mas além disso, a maior das certezas que eu tive enquanto relia, É QUE RIMBAUD É CHATO PRA CARALHO.

Enquanto eu tomava prazer em Rimbaud, em Wilde, e em Baudelaire, esses filhos da puta estão mortos, suas prosas e poesias, por mais lindas e importantes para a nossa classe, são um bagulho chato pra caralho, que só se sustenta na sociedade por 1) acadêmicos que querem bancar o intelectuais – e afirmam ser intelectuais – e querem preservar a ‘boa cultura’, seja lá o que essa porra signifique, 2) pessoas que acabaram de conhecer esses clássicos, e acham que todos tem que conhecer e falar deles o tempo todo, e aqueles que já se esqueceram que releiam, 3) escritores babacas que querem ser OS intelectuais, achando que as obras deles são quase equiparáveis a um deles – been there, done that – mas o que eles não percebem é que imitar os clássicos e falar de albatrozes sendo massacrados por pescadores (ave PETA), ou de gigantes egoístas, ou de abrir asas de outros jovens, não faz deles tão bons quanto os clássicos, fazem deles uns puta duns babacas sem originalidade e chatos pra caralho, onde passado do primeiro verso dá vontade de se cagar por simples se cagar.

Talvez eu não esteja burro, embora eu esteja sim, mas estou apenas cansado. O que fazemos todos os dias, especialmente nos círculos artísticos é querer mostrar que você sabe, que você entende, que você é o mestre da porra toda. Mas qual a relevância de tudo isso? Nenhuma. Baudelaire dizia que o que movia os poetas era o Tédio, mas para onde eu olho, a única coisa que eu vejo mover os poetas é seu Ego, ou sua petulância, ou uma falsa sensação de importância. É impossível ficar em um sarau sem sentir um senso de depressão, e uma vontade de mutilar minha rola e sair cagando pelo chão. Enquanto eu entendo que tudo o que a gente faz é para ser aceito na sociedade (ou comer alguém, como já diziam outros poetas), esse ato de fazer é o mesmo que uma inação, pois a única coisa que rola em saraus pelo Brasil são poesias de como a vida é bela e boa para ser vivida – embora nossa classe sofra pra caralho, especialmente os que estão mais a baixo –, ou como o amor é a coisa mais importante na vida – mais importante que acordar cedo e dar aquela cagada, aparentemente -, ou é alguma ode às trevas, um pseudo monólogo acerca da escuridão e de como a vida moderna é vazia, ou como a tecnologia tem escravizado as pessoas. O segredo secreto – e longe de mim ser o dono de toda a verdade, uma vez que meu ponto é o contrário disso tudo – a vida, a sociedade e o amor é tudo isso, nada disso e um pouco mais! Especialmente a parte sobre a relevância de acordar pela manhã e dar uma cagada.

Uh. Isso saiu de um texto sobre o quão burro eu sou, para uma rant das artes (pós)modernas.

De qualquer forma, eu tenho sentido como se toda informação que eu tento me agarrar, escorre pelas minhas mãos, tão rápido quanto ela entrou. É como dizem por aí, sei mais que meus antepassados, mas retenho menos do que eles. Meu fluxo de informação é maravilhoso, consegui construir uma rede de contatos que eu admiro, e agradeço a elas e eles por fazerem parte desse fluxo. Eu consigo ter acesso a praticamente tudo que me é irrelevante. Tendências artísticas? Eu tou dentro. Algum político de direita/esquerda soltou uma cagada, e falou/fez algo que nos prejudique? É tou sabendo. Aquela festinha louca transcendental de exploração do Eu? Amanhã tou lá. Aquele sarau, onde vão falar de como a vida é bela e boa para ser vivida, como o amor é a coisa mais importante da vida, como a vida moderna é vazia e vivemos na nova era das trevas, e como a tecnologia tem escravizado as pessoas? Podepá irmã/o. Qual a relevância dessa rede e desse fluxo de informação? Aparentemente nenhuma. Qual a utilidade?

Qual a utilidade? É algo que me excita, e que me deixa feliz, mas embora eu saiba mais, eu não mantenho nada. Se estivéssemos falando em termos materiais, é como se eu pudesse experimentar todas as vodkas do mundo, mas não pudesse ficar com nenhuma delas. Não porque me é proibido, ou porque eu não ache nenhuma que eu goste, mas porque eu estou em um coma alcóolico. Eu estou em um coma alcóolico de informação. Eu leio um milhão de artigos sobre políticos, sobre como estamos perdendo nossa luta ao redor do mundo, sobre gadgets úteis, life hacks, sobre humor, sobre como ter experiências transcendentais, sobre como enquadrar e dirigir filmes, mas de que forma eu estou dirigindo minha vida?

I have no mouth, and I must scream.

No outro dia lembrei que a vida, por mais ‘longa’ ou ao menos o que consideramos longa pelo tamanho de tempo no qual estamos acostumados a ser o tempo que nos é nada, ela é apenas isso: momentânea. Nesse exato momento, eu estou com o cronômetro do meu celular ligado, contando o tempo que eu demorei para escrever esse texto, sem interrupções, porque eu não tenho noção de quanto tempo se demora para se escrever um texto. Uma hora e Vinte um minutos, 1976 palavras. São 1h19 da madrugada. E a vida é isso, ela não para, embora eu me sinta estagnado, com meu fluxo de informação sempre em rotação. Eu vou à faculdade todas as noites, as tardes geralmente dedico ou ao estudo ou ao meu fluxo, e eu não tou fazendo nenhum dinheiro com nenhuma dessas atividades, e eu preciso de dinheiro, quem não precisa de dinheiro? A vida não tá fácil, nossa classe a cada dia é destruída aos poucos para favorecerem os patrões, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, João Dória dando 80% de desconto nas dívidas das empresas, enquanto corta gastos para programas educacionais e culturais na periferia de São Paulo. Eu nem vivo mais em São Paulo, mas isso me deixa puto pra caralho. E tudo isso, e eu me sinto como um vagabundo, uma sanguessuga que vive explorando o trabalho das pessoas a minha volta, enquanto eu não faço nada além de estudar e observar meu fluxo de informação, e não conseguir me agarrar a nada, a ninguém, e tudo isso me corrói por dentro, porque eu queria fazer mais do que eu faço, mas talvez eu tenha medo de sair lá fora, e eu ainda sim saio, mas nenhuma experiência boa vem, e tudo isso é provavelmente a minha culpa. Eu não estou me esforçando o bastante, e nem as pessoas à minha volta, porque a mobilidade social é algo que existe, você sabia? É, é o que dizem por aí, e eu queria entender isso, e tentar isso, mas não me apetece, e não me é possível no momento. A única coisa que me resta é subir a porra da montanha, e lá encima gritar para o mundo todo ouvir, que por mais que aquilo tudo não importe – pois me ensinaram assim – e que todos vamos morrer um dia, aquilo ainda assim me corrói por dentro. Todos vamos morrer um dia, mas ainda assim, nossas vidas não são irrelevantes, por mais que as cobras niilistas que detêm o poder digam isso para nos desestimular. As ovelhas um dia vão pegar facas e estriparem os lobos, fazendo-os gritar em dor enquanto sangram até a morte. Ao mesmo tempo, nossa vida não é tão valiosa quanto afirmam os donos das cruzes douradas, que nos vendem uma esperança para algo que não é palpável e é incerto, para nos tranquilizar em todo nosso sofrimento nas mãos dos poderosos.

A cada dia, eu sinto que minha liberdade será tomada de mim, usando mentiras das quais eu não tenho responsabilidade, ou sanidade para utilizar minha liberdade. O fim da minha vida é atrás das grades, atrás das grades do hospício, por faltar me inteligência e sanidade. Ou atrás das grades de uma prisão, por matar J. Dólar.

Minha geração é constituída de malditos, que sofrem de problemas mentais derivados de nosso contexto sociopolítico. Dizem que somos uns mimados filhos da puta, mas se esquecem de que não nos criamos sozinhos, fomos criados. Somos fruto do ensino de nossos pais e mães, fruto de uma sociedade doentia, que faz as pessoas trabalharem igual condenados, para que não haja certeza se o amanhã chegará um dia. No fim, a maior de todas as mentiras já contadas, é nossa ordem social. Iremos todos para o inferno, pois somos indignos de perdão.

“Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio”.

Anúncios

Pense dentro da caixa

Não é segredo que eu vim do interior do estado. Até me orgulho, em meio as piadas auto infligidas. Mas o modo como eu fui criado causa estranheza a alguns amigos e amigas. E quero que eles se fodam.

Sinto-me desconfortável ao andar pela capital. Seja pelo fato de haver olhos e ouvidos por todos lugares, ou por terem me ensinado enquanto criança que não devia confiar em estranhos, especialmente na capital.

Talvez meu paladar mórbido – essa minha paixão sádica – pelo sensacionalismo, de nada me ajuda. Ver aquele gordo filho de uma puta – que se diz cristão – gritar e berrar por e pela morte, deixando subentendido em nosso consciente que os crimes nesse país saem impunes – o que não é verdade. Esse sadismo faz parte das minhas – às vezes noites – há pelo menos 7 anos. Não é parte do que sou, embora eu finja ser.

A noite sem as estrelas me assusta. Muito embora tenhamos trazido as luzes para próximo de nós. Uma sombra desce a rua, em minha direção, e solta um suave e sonoro “boa noite”, enviando arrepios à minha espinha. “Quem é você? / Eu não lhe conheço. / O que você quer? ” são minhas respostas mais comuns.

Das duas vezes nas quais fui assaltado era dia, mas é a noite que me deixa desconfortável. Especial quando se tem muitas pessoas na rua. A minha paz com a noite se dá no silêncio sepulcral, com ninguém à vista, quando eu posso gritar meus mantras pessoais e sagrados, rompendo o silêncio eterno.

Eu subia a ladeira que leva à minha casa e não havia ninguém, apenas uma matilha de cães, desbravando a noite com sua diversão infinita. E seu líder ancião, do outro lado da rua os observava, a irreverência de seus enteados o colocava em um estado contemplativo. Das pequenas coisas da vida que ocorrem na madrugada da capital, certo?

Não sou apenas eu, acredito, que vive e sente-se dessa forma. Ainda mais na capital. Olho para suas caras nas filas do metrô, nas filas dos bancos. Vivemos todos presos nesse universo próprio e esquizofrênico, com suas próprias regras que desafiam a biologia ou lógica. Somos todos claustrofóbicos. Presos em uma pequena caixa, sem qualquer esperança de nos livrarmo-nos em um futuro próximo.

À noite, pessoas e pessoas dormes, deixando as almas imortais e cérebros inquietos vivos, planejando e conspirando contra a caixa, contra a máquina. Minha mente grita na calada da noite. Ninguém responde.

Estaremos sempre confinados?

A Ponte do Diabo

On nothing have I set my heart,
So in the world I bear my part”
– Goethe

 

Poderia contar a História de Twardowski, ou a de Fausto, mas não irei e embora essa história tenha lá suas semelhanças, ela serve para provar que velhas tradições nunca mudam, e são carregadas por todas décadas. E de exemplos é o que não falta no mundo. Minha professora de português dizia que toda história tem começo, meio e fim, então evitarei me enrolar nas questões do ‘antigo’ e do ‘novo’, e começarei a maldita história.

Você, leitora ou leitor, já deve ter ficado pendurado em uma janela, num dia de verão chuvoso, e se pegou apenas encarando a chuva, por minutos e minutos, refletindo sobre a vida e diversas outras coisas. Se nunca fez algo assim, lhes recomendo, pois é bem esclarecedor. Aprendi esse pequeno gesto com uma amiga, e nunca mais me esqueci dele. Ela sempre faz isso, independente do tipo de chuva.

Mas foi num dia chuvoso de verão, em que o mundo dela virou de ponta cabeça. Vejam só, camaradas. Ela tinha alugado um chalé, que ficava longe da civilização, e bem próximo da natureza – o que alguns poderiam dizer como próximo de Deus – e tendo ido apenas ela e sua namorada, é de se esperar que se tenha muita paz, e inspiração a fluir de tudo ao redor dela. O que é importante para um artista, não?

Margô era uma artista plástica. Diria que uma das melhores que já conheci, mas sou suspeito para dizer, porque sempre amei Margô e suas obras. Ela usava de traços simples, e conseguia trazer significados profundos e complexos aos seus desenhos, coisa na qual eu tentei me inspirar para escrever, tentando trazer uma linguagem simples, com um conteúdo profundo e complexo, o que claramente não consigo, pois fico preso a uma linguagem romântica barata, digna de um Rimbaud ou Baudellaire ou Poe produzido na China – o que claramente muitos amigos e amigas me criticam por.

E por mais que ela pudesse estar ali com sua amada, num lugar que qualquer babaca chinfrim poderia chamar de ‘romântico’ – é um chalé no meio mato, afinal – algo a perturbava. E isso era nítido, como me confidenciou sua amada após todo o ocorrido, pois ela estava sentada na janela, encarando a doce chuva de uma mata atlântica, mas ao invés de um olhar contemplativo, como se estivesse refletindo sobre qual a verdadeira natureza de Deus, Margô tinha um semblante melancólico, como se encarasse a morte, e visse ela como um destino próximo. Nem mesmo Beatriz conseguia animá-la.

“O que foi amor? ”, Beatriz perguntou, de forma doce e solene. Mas recebeu um vazio “Sei lá”, seguido de um suspiro e “Nada. Eu acho”, ela então se virou para Beatriz, e soltou um sorriso forçado, onde podia sentir um leve grau de melancolia.

Os próximos três dias foram conturbados, Margô tentava desenhar. Sentava-se na janela com um caderno e um lápis, e rabiscava e rabiscava e rabiscava, arrancava a folha, amassava e soltava no chão. Às vezes tentava desenhar em uma tela, mas logo soltava a paleta e o pincel também. Sentava no pequeno sofá, e trocava constantemente de posições, de forma impaciente. Qualquer pessoa diria ser a monotonia do lugar, mas essa pessoa provavelmente não conhece a Margô.

Desespero, um dia ela talhou na madeira do chalé com seu canivete. Nesse mesmo dia, Beatriz saiu para colher algumas ervas para fazer chá, e na volta trouxe uma margarida para sua amada. Margô olhou para a pequena flor e disse: “Ela vai morrer”. O que é extremamente niilista, coisa que ela mesma nunca foi. A maior amante das artes, da vida, do universo, olhou para uma flor, e ao invés de extrair a sua beleza, só pode ver a morte.

Quando o sol nasceu no outro dia, ela não estava em nenhum lugar no qual poderia ser vista. E de frente para o chalé só restava uma pequena fogueira, com as brasas morrendo. Beatriz reacendeu o fogo, e colocou uma chaleira para esquentar um pouco d’água, para as duas tomarem um chá, quando Margô voltasse. Ela havia ido dar uma volta na mata.

Encontrou uma longa ponte, que atravessava um pequeno riacho – provavelmente já projetada em caso de cheia? – mas sua estrutura era de uma natureza não-humana. Era de pedra, e tinha um arco inconcebível para as mãos e mentes humanas, e a julgar pela sua aparência, ela fora construída há séculos.

Margô ficou parada, encarando a ponte. A desenhava com o dedo, como se tentasse memorizar seus traços e detalhes. Aproximou-se. Pisou no riacho, e tocou a pedra, cheia de musgos. Atravessou o riacho e subiu na ponte, passando sua mão no corrimão a sua esquerda. A pedra estava gelada. No outro fim da ponte, virou-se e passou a sua mão esquerda no outro corrimão. Por fim, parou em cima da ponte e debruçou-se sobre ela. Soltou um suspiro e abriu um sorriso.

“É bonita, não é mesmo? ”, disse uma voz vinda do lado direito de Margô. Ela virou o rosto, assustada. Até porque, é dito que aquelas matas eram inabitadas por humanos, sendo que a cidade mais próxima ficava há 23 quilômetros dali. “Quem é você? ”, ela perguntou. “Me chamo Mensogisto”, disse o homem que vestia um casaco preto e longo “Moro em uma das cidades vizinhas. Sempre que preciso ir à outra cidade, faço esse antigo caminho, apenas para atravessar essa ponte. Acho ela bonita”, ele sorriu. Margô concordou com o fato da ponte ser bonita. O homem tirou um cigarro de dentro do bolso do casaco, ofereceu um a Margô, que se recusou. O homem acendeu o dele, e perguntou, “O que faz aqui? Mora aqui perto? ”.

Ele era estranho, alto, com uma voz doce e suave. Margô se sentia um pouco incomodada em conversar com o homem, mas estranhamente, isso não a impediu que dissesse que não morava ali, mas tinha alugado um chalé para passar um mês com a namorada, e que desde que chegara ela sentia um vazio dentro do peito, não conseguia nem mesmo sentir afeto pela namorada, com a qual convivia há 10 anos. E enquanto ela falava tudo, o homem estava encostado no corrimão da ponte, fumando em silêncio, como se analisasse cada palavra que ela dizia. Ou isso talvez fosse alguma loucura de sua cabeça?

O homem sorriu e disse, “Você parece frustrada”. Ela suspirou e concordou. “Por sorte”, disse o homem, “eu vivo para resolver problemas”. Margô olhou para o cara, incrédula, como se não acreditasse em uma palavra que o homem dissesse. “Ok, pode parecer loucura, mas eu posso te ajudar. Digamos que eu faça desejos se realizarem”. “Oh, é mesmo? ”, disse Margô com um tom sarcástico, “Então faça com que eu pinte as maiores obras da arte contemporânea, e que após eu completa-las, eu descubra o verdadeiro significado da vida”. O homem abriu um sorriso amarelo.

“Tudo bem, e em troca disso, o que eu ganho? ”. Margô riu, você conseguia ver que para ela aquilo tudo era uma grande piada. E sem perder o tom sarcástico, ela disse: “A minha alma, é claro”, e continuou a rir. O Homem então começou a rir também. “Perfeito, e prefere firmar esse contrato no papel, ou apenas verbal? ”, Margô ria histericamente, e disse “No papel, vamos manter o estilo”.

O cara removeu um papel de dentro do casaco, estendeu ele no corrimão da ponte e disse: “Vamos aos Termos: ‘Eu, Mensogisto, prometo garantir à Margô Rosana Carvalho inspiração para que ela pinte as mais belas artes contemporâneas, contanto que ela mantenha viva a Margarida que Beatriz Couto Marquês a deu, e após a última pétala da margarida cair, ela descobrirá o verdadeiro significado da vida. Em troca, Margô Rosana Carvalho, me entregará sua alma por toda a eternidade’. Alguma coisa que você gostaria de mudar? ”. Margô estava com os olhos arregalados, ela não havia mencionado o seu nome ao homem, o que dirá seu sobrenome, ou o nome de Beatriz. O homem colocou a mão direita atrás da orelha de Margô, e quando trouxe em seu raio de visão, ele tinha uma caneta em mãos, ele sorriu e disse: “Eu sou um mágico, um artista como você, Margô. Mas também vivo para resolver problemas, por isso sei seu nome e o de Beatriz”, assinou o próprio nome na folha. Estendeu a caneta pra Margô, que pegou a caneta, e mesmo receosa, assinou o contrato. O homem sorriu. “Mais uma coisa”, disse o homem, colidindo uma palma com a outra, e quando separou as duas mãos, ele segurava com cada mão a ponta de uma corrente com uma chave. “Embaixo dessa ponte, tem um cachorro preso a uma corrente. Seu nome é Caleb, ele é meu emissário. Ele ficará próximo de você o tempo todo, e verá você concluir cada etapa do tratado”, o homem sorriu e entregou à Margô a chave, “Essa cópia fica para você”, disse ele retirando o papel do tratado do corrimão, enquanto embaixo havia outro igual, do qual o homem guardou dentro do casaco.

Ele então subiu no corrimão da ponte, e sorrindo, acenou para Margô. Abriu os braços, como se estivesse numa cruz, e caiu de costas. Margô correu para ver o que ocorrera com o homem, mas ele não estava mais lá. Ela saiu da ponte, e viu que embaixo da ponte tinha de fato um cachorro, que não estava ali quando ela chegara. Caleb, o cão, estava deitado no riacho. Quando ela se aproximou, ele se levantou e se sacudiu, molhando-a. Abanou o rabo e colocou a língua para fora. Não tinha raça, mas era muito bonito. Ela agachou e usou a chave para abrir sua coleira, o cão latiu e latiu, como se comemorasse a liberdade.

Sem saber que horas eram, mas tendo a certeza que perdera ao menos 2 horas, desde quando ela havia saído do chalé. Ela finalmente voltou, para encontrar Beatriz meditando diante da fogueira. A chaleira começou a apitar, Beatriz abriu os olhos, e viu Margô parada, encarando-a e sorrindo. Beatriz sorriu de volta, se levantou e correu, pulando nos braços de sua amada e a beijou. “Que bom vê-la sorrir”, disse. “Não sei, estou me sentindo renovada, como se estivesse pronta para desenhar novamente”, disse Margô. “Andar na mata é sempre bom para renovar os ares”, respondeu Beatriz, “Mas venha, vamos tomar um chá”. Ela colocou um pouco de camomila em dois saquinhos, os amarrou e colocou em duas xícaras, as entregou a doce Margô e foi buscar a chaleira na fogueira. Despejou a água nas xícaras, e então colocou a chaleira na cozinha do chalé, voltou à sacada, onde sentou-se ao lado de Margô, e ficaram lá, conversando.

Margô explicou como conseguiu Caleb e contou a ela toda a história, com um tom de dúvida na própria voz, como se não acreditasse no que tinha acontecido, e Beatriz ouvia tudo com o maior entusiasmo, e pediu para ir ver a tal ponte mais tarde. As duas beberam o chá, e Beatriz foi dormir, enquanto Margô ficou sentada na sacada, desenhando, como num estado de epifania, enquanto Caleb ficava deitado aos seus pés.

No final da tarde, Beatriz acordou, e viu que Margô tinha pintado duas telas, com a paisagem que via, e tinha feito outros três desenhos em seu caderno. A margarida que ela havia dado à Margô estava na janela, numa garrafa long-neck cheia d’água. Já Margô estava estendida na grama, de olhos fechados e com um sorriso na cara.

Ela pediu para que Margô a levasse na ponte, para ela ver a beleza do lugar também. Margô pegou na sua mão, e as duas foram correndo, uivando, gritando, quebrando o silêncio sagrado e ancião daquela mata. Mas quando chegaram no lugar, não havia ponte alguma, ela jurou que a ponte estava lá, e que tudo fora real, mas Beatriz disse que ela talvez tenha dormido por algumas horas na mata, e acabou por sonhar com a tal ponte. E apesar disso, elas voltaram com a mesma felicidade e empolgação para o chalé. Sentaram-se na varanda do chalé, e ficaram contemplando o pôr-do-sol.

No dia seguinte, um décimo das pétalas da margarida havia caído. Margô decidiu que seria interessante desenhar a margarida e as pétalas caídas. Desenhou sua namorada meditando, sua namorada fazendo chá, sua namorada brincando com o Caleb. E mesmo Caleb andando perto do Chalé, dormindo, e sentado contemplando a paisagem. A cada dia um décimo das pétalas caia. E um dia, só restou uma única pétala.

Margô desenhou a margarida, com uma única pétala. Na sua cabeça, aquilo tinha um simbolismo melancólico, mas ao mesmo tempo era excitante, pois logo mais ela descobriria o verdadeiro significado da vida. E o que humanos em toda sua existência tentaram descobrir, como se houvesse um abismo que separava toda a humanidade desse segredo, mas ela descobriria de uma forma tão simples, como se houvesse uma ponte no qual ela atravessaria. Teriam outros feito o mesmo pacto, e já descoberto o verdadeiro significado da vida? O que aconteceu com essas pessoas?

Durante a tarde desse dia, uma terrível tempestade veio, com ventos fortes que derrubaram a última pétala da margarida. A chuva também veio forte. Essa tempestade tinha um teor místico, pois não tinha como ela ocorrer numa tarde de janeiro. Com toda a certeza não era uma chuva de verão. Margô sentou-se à janela, com uma caneca de café e ficou encarando a chuva e a ventania. Os antigos diziam que é um vento doente, aquele que não sopra nenhuma mente. E toda aquela tempestade, aquela ventania, trouxe a Margô o verdadeiro significado da vida. Não faço questão de saber qual era o significado, e de fato não sei, e vocês camaradas que me acompanharam até aqui, também não saberão qual é, felizmente.

Caleb começou a latir freneticamente, Margô estava em transe. Beatriz saiu para ver porque o cachorro tanto latia. Reparou na margarida na janela, sem nenhuma pétala, murcha, morta. Olhou para sua namorada, e a viu encarando a chuva, mas sem de fato ver a chuva. Ela encarava o vazio. Beatriz então indagou qual era o verdadeiro significado da vida, e recebeu como resposta um seco “você não vai querer saber”.

Durante a madrugada, enquanto Beatriz dormia, Margô saiu para a mata, em busca da ponte. Caleb a seguiu. Para sua surpresa, a ponte estava lá. Ela subiu na ponte e gritou “Mensogisto! ”. Ele apareceu, com um sorriso na cara, e um cigarro no canto da boca, ele disse “O que foi, minha criança? ”. Ela estava frígida, mas lentamente disse, “Quero revogar o contrato”. Mensogisto balançou a cabeça, “Você não pode fazer isso, criança, você não quis adicionar uma clausula de revogação do contrato”. “Então eu quero fazer outro pedido”, ela replicou. “Ah é? E o que você vai me oferecer? A alma de Beatriz? Da sua mãe? Do seu irmão? Do seu Padrasto?!”, ele disse em fúria, “Você não tem poder sobre outras almas, você não pode jogar com outras almas, e a sua alma já é minha. Eu satisfiz todos os seus desejos, não existe nada que você possa fazer”. Margô caiu de joelhos, sem reação e sem conseguir chorar, encarando as botas de Mensogisto. “Não há nada que você possa fazer, vá para casa. Você é a maior artista contemporânea”, ele disse suspirando. “E do que vale tudo isso? ”, ela indagou. “Eu não sei, e você sabe que não me importo. Aproveite a noite, e tente viver bem, nos vemos do outro lado, criança. Vamos Caleb”. E ele saiu andando, para a linha do horizonte, sumindo no meio das árvores.

Margô voltou para o chalé, não conseguia nem mesmo chorar, ou gritar. E durante a manhã, Beatriz teve uma surpresa, pois a sua margarida, estava morta, e segurava uma carta, com um último desenho, e que pedia para que todos os seus trabalhos fossem publicados, pedia desculpas pela partida, e dizia que nenhum humano deveria descobrir o verdadeiro significado da vida, e que se um dia os humanos descobrissem o significado, isso significaria o nosso fim.

Vinte e Três

Quando eu fiz 23 anos, minha vida parecia ir bem, tinha emprego, estava terminando a faculdade e financiando um carro. Sonho de qualquer moleque classe média, não é? É engraçado, pois criam a gente assim. Cê estuda, mas estuda pra caralho, pra entrar numa federal ou estadual, aí tu estuda o dobro do que tu estudou até agora, cata um estágio então trampa e estuda pra cacete. Você quer ser alguém na vida, não? Então cê se forma, pega diploma, é promovido no trampo, financia um carro ou uma casa, e bem-vindo à sociedade.

Minha vida de jovem adulto classe média branco era linda, mas tudo começou a ruir pouco a pouco. Pouco a pouco, eu trabalhava aos montes. Dia e noite, noite e dia, hora extra e outros tipos de baboseiras. Sabe aqueles quadrinhos que cê dá risada, e fala que nunca vai deixar acontecer contigo, aqueles que mostram um cara deprê/estressado, que vai da casa ao trabalho, do trabalho pra casa? Bem, é uma triste realidade nossa, devo alertá-los.

Formado em programação, minha vida se resumia a tendinite e problemas de visão, aliados a estresse e pressão social. Merda. Eu queria ser um maldito programador foda, sou formado em ADS, no fim das contas. Todos esperavam de mim, ser um puta gênio matemático, ou coisa assim. Mas não era bem assim. Eu não queria ser assim.

Recebia um salário pleno, bom o bastante para ter um luxo próprio, videogames e jogos, todos originais. Mas, e daí? Não tinha a porra dum minuto pra poder jogar. Tempo todo, com os dedos nervosos, nervosos e nervosos. Digita, digita, digita. Minha média por dia eram 23 classes. Tudo tão lógico e minimamente arquitetado.

Fim de semana eu ia para almoços e jantares com a família, ou saía com os amigos. Com a família era aquele banquete, arroz, feijão, salada e um frango assado, que não pode faltar de uma família típica do interior; com os amigos era música, bebida, comida velha e cigarros. Esse frenesi todo, que me movia durante a semana.

Com o tempo, eu decidi simplesmente parar. Faltei um, dois, três dias no trampo. Logo mais fui demitido. Toda essa loucura, todo esse caos inerente ao sistema. Não consegui arranjar outro trampo, logo tiraram meu carro, minha casa, e a única coisa que havia me sobrado, era um pedaço de papel, que eu poderia colocar na parede e dizer orgulhoso: “Uh! Olha, eu sou formado”.

Mas do que vale tudo isso? Ter carro, casa, cachorro, família? Tudo que eu queria era não fazer nada, fazer o que eu quisesse fazer, não precisar me ordenar, saca? Ficar de boas, na boas. Visto que isso é impossível, vinte e três anos não é tarde demais. Nunca mais.

Aquele que caminha entre os mortos

Vocês que hoje caminham entre os vivos, um dia caminharão também entre os mortos. Esse texto tenta tratar um pouco da mortalidade humana. Não é novidade para ninguém, que morei muitos anos na rua, e quando ficava frio, no inverno, a cidade de São Paulo inteira era fria. Eu sempre buscava um local gostoso para me aquecer.

Um dia, caminhando ali pela Vila Romana e pela Lapa, passei de frente ao cemitério da lapa. Com os portões abertos. Entrei como se não quisesse nada. Para aonde eu olhava, via túmulos, e não conseguia tirar da minha cabeça, que abaixo de tudo aquilo, existiam pessoas. Todas mortas.

Andei por ali, e achei um túmulo aberto, com um caixão aberto. Era um caixão fino, desses de gente rica, saca? Não tinha ninguém por perto. Deitei-me no caixão e dormi por algum tempo. Não muito tempo, mas tempo o bastante para escurecer. Fui acordado com cutucões.

“Hey, hey, tu ‘tá morto? ”. Dizia a voz que me cutucava. Assustado, acordei no pulo, dizendo “Não, não, eu ‘tou é vivo, tu é louco”. O coveiro então soltou um suspiro e disse: “Então cai fora daqui, que aqui é um espaço dedicado aos mortos”.

E assim fui. Sai do cemitério, e comecei a andar. Subi sentido Heitor Penteado. Enquanto subia, dois carros colidiram, um de frente ao outro. Ambos motoristas mortos. Uma criança no banco de trás de um dos carros chorava. Senti pena de sua pobre alma, que acabara de perder o pai. Não deve ser fácil experimentar a mortalidade humana assim, vendo a morte de perto.

Em um momento a pessoa está respirando, pensando, vívido; no outro jaz morto, um pedaço de carne, sem alma ou utilidade. É chocante de se pensar sobre. E isso me assombrou, enquanto eu ia pela Heitor, Sumaré, até chegar na Dr Arnaldo, onde outro cemitério me chamou a atenção.

Andei por lá. O ambiente é maçante. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Gerações e gerações de famílias. Todas debaixo da terra. Enterradas. Mortas. Pedaços de ossos inúteis. Era estranho, mas da mesma forma sublime. Achei uma cova, mas dentro dela não havia caixão. “Aqui é meu lugar”, pensei comigo mesmo.

Ouvi o coveiro do lugar conversar com outra pessoa, perguntava o que faria comigo, que estava ali deitado. Perguntou-me se eu estava morto, e fiquei quieto, de bico calado, como se estivesse morto, para tentar ver como ele reagia.

Sem muito pensar, ele começou a jogar a terra, tentando enterrar o buraco. Eu pulei, gritando, “eu ‘tou vivo, graças a deusa, eu ‘tou vivo, eu ‘tou vivo! ”. O Coveiro não parecia muito feliz com a coisa. “Saia daqui homem, teu lugar não é aqui. Esse lugar é dedicado aos mortos”.

De fato, o cemitério aos mortos, e apenas aos mortos, pertence. Nenhuma vivo deveria se submeter a essa humilhação, nem mesmo eu, que era morador de rua. Desde aquele dia, eu decidi sair da rua, voltei para minha família e a eles pedi ajuda, que me ajudaram alegres de braços abertos. Hoje sonho com um futuro melhor. Quem sabe um dia, ao invés de andar entre os mortos, eu descanse de fato com os mortos?

Hoje o ônibus não vem

A história que vou lhes contar, leitores e leitoras, aconteceu na última sexta 13, em março desse ano. Tinha me despedido dos meus camaradas, após uma grande deliciosa breja, e ia para minha casa. Mas vou te dizer, era meia noite, e eu tinha que correr para não perder o último bus. Veja bem, leitor, eu estava bêbado e dependendo da então nova rede de busões da madrugada.

Peguei o último metrô, para um ponto de ônibus, onde eu geralmente pego o busão mesmo. Tinham mais 3 pessoas no ponto. Sentadas, todas em silêncio. E acho isso engraçado, é como se a sexta-feira 13 estimulasse isso nas pessoas: um silêncio sepulcral vindo de dentro da alma. Às vezes eu pigarreava, para quebrar aquele silêncio. Mas todo permaneciam parados, olhando para a frente, como se nada acontece em suas costas, ou ao seu lado.

Pouco a pouco, cada pessoa subiu em um ônibus e apenas eu fiquei no ponto. Sentei-me na guia da calçada. Respirei fundo. Tentei me manter calmo, saca? Mas vou dizer que não é fácil, ainda mais na madrugada de sampa. Não desejo isso a ninguém. Talvez minha criação tenha contribuído com a coisa toda, mas o fato é que eu comecei a respirar pesado, como em um ataque de claustrofobia. Comecei a suar frio, e o frio da madrugada me deixava desconfortável.

Algo dizia para mim, a todo momento, a todo momento, a todo momento: “Hoje o ônibus não vem”. E uma angústia batia em minha alma, meu coração acelerava o ritmo. Eu olhava para cima, e via apenas a escuridão do seu paulistano. Nenhuma estrela. O Vazio. Olhava de um lado a outro, de um lado a outro, e não havia nada.

Sempre senti um apelo para com Vazio, devo dizer. Principalmente na época em que eu lia e debatia filósofos existencialistas com o Levs. 2012, 2013? Não faz muita diferença agora, faz? Olhar para a imensidão do céu, e ao invés de ver o Universo, ver o vazio; olhar para a rua, e ao invés de ver pessoas, ver o vazio. Por mais contemplativo que seja, dá um cagaço do caralho. Principalmente em Sampa.

Meia hora, desde que me sentei no guia da calçada, uma da matina. Uma da matina, nem ônibus, nem vida. Apenas o vazio. Eu queria apenas abaixar a cabeça, e sentir todo aquele vazio, fazer parte dele, mas abaixar a cabeça significa abaixar a guarda. Ao longe ouço um grito, triste, melancólico. Nem de cachorro, nem de humano. Provavelmente alguma Banshee. Alguma alma transita entre a vida e a morte, nessa madrugada de sexta 13.

Sair para beber em uma quinta-feira 12, após a faculdade, foi a pior decisão da minha vida. Sou supersticioso, quem lê o que escrevo já deve ter percebido. Se passo por gatos pretos, tenho que cuspir no chão, passar de baixo de escadas? ‘Tou fora, chapa. Mas a questão é, naquela avenida nem gato preto passava. Era eu, eu, e eu, e às vezes a voz, que me dizia que hoje não teria ônibus.

A solidão e o vazio faziam um jogo engraçado em minha mente. Não sei explicar o sentimento, mas é como se eu entendesse a solidão de Thorreau em ‘A vida no bosque’, ou a paranoia e a loucura de Kerouac em ‘Big Sur’, com a diferença de que eu não passei dias e dias excluído da sociedade, mas apenas uma hora sentado, em plena solidão duma cidade que, na teoria, nunca dorme.

Quando era duas e pouco da matina, o silêncio sepulcral foi interrompido por um leve bater de metal em concreto. Uma sombra, um tanto quanto alta, vinha em minha direção, com a perna esquerda enfaixada, apoiando-se em uma bengala. Me levantei, e me virei totalmente olhando para a figura. Oh, teriam os deuses virados as costas para mim? Seria esse o destino de minha vida? Morrer bêbado? Nesse meu desespero embriagado, não percebi a lentidão em que ele vinha em minha direção. Em 15 minutos de caminhada, eu despistei o homem.

Não sei se foi uma boa ideia, mas andei por muito tempo. E o mesmo sentimento, e o mesmo cenário. O vazio estava ali. Andei por mais duas horas inteiras, em busca de vida, de pessoas. Tudo era tão vazio. São Paulo, a cidade dos santos, onde todos estavam mortos e enterrados embaixo de suas cobertas, enquanto um bêbado qualquer andava, desnorteado, procurando o sentido da vida, o despertar da civilização, numa cidade imersa no Silêncio.

Eu gritava, gritava e gritava, em busca de alguém, em busca de algo, qualquer coisa. É como se todos tivessem trancado suas casas, colocado sal nas portas e janelas, e eu tivesse me tornado uma criatura da noite, que vaga resgatando velhas lendas e superstições, tentando devorar almas.

Por fim abro meus braços, como Cristo, e solto meu corpo, caindo de cara no concreto. E então algo me ilumina. Levanto minha cara, deixando o sangue de meu nariz escorrer, e vejo que um ônibus vir em minha direção, não um ônibus qualquer, é claro, mas o meu ônibus. Dou sinal, ele para, eu entro. Simples assim. Sorrio para o motorista, com meus dentes vermelhos, do sangue que escorre do meu nariz. São 4h30, os ônibus voltaram a sua circulação habitual. Mas a voz na minha cabeça estava certa, nessa noite meu ônibus não passou, e se passou eu estava embriagado o bastante para não perceber. Atravessei a catraca e o cobrador disse: “Uma noite daquelas hein? ”. “Você nem imagina, chapa”, respondi, “você nem imagina”.

Então você quer um pouco de violência gratuita?

Alguns amigos meus aprovam violência gratuita em mídias de entretenimento, e acham que a literatura deveria adotar essa postura. Então vocês querem um pouco de violência gratuita na literatura?

Que tal se eu começasse entrando em sua casa, molestando seus cachorros e gatos? Então eu bateria na sua cara com um pedaço de vassoura, até que seus dentes saíssem. Eu pegaria seus dentes e os colocaria no liquidificador, com um pouco de urina e merda, dissolveria. Amarraria você e sua família em uma cadeira e os faria beber, até vomitarem e se cagarem inteiros.

Enquanto vocês estivessem vomitados e cagados, eu sacrificaria seus bichinhos de estimação, e jogaria seus sangues e suas tripas em vocês. E amarraria seus intestinos grossos no seu pescoço e no pescoço da sua família. Você provavelmente ficaria perturbado o resto da vida, com o grito de dor de seus animais, certo? Calma, o resto da vida não dura muito.

Eu esquentaria um cutelo com um maçarico, e o passaria devagar em sua coxa, como um serrote, suavemente: pra frente, pra trás, pra frente, pra trás; e quando sua perna se cortasse por completo, eu usaria ela pra espancar seu pai, até que ele ficasse com a cara inchada e cuspindo sangue. Então eu pegaria o cutelo e cortaria fora o seu braço, e enfiaria no cu dele, como um fisting, ou um canibalismo pela bunda.

Com a sua mãe, eu abriria a barriga dela com as unhas, e arrancaria seu coração com o punho, e faria você comê-lo enquanto ainda bate, arrancaria as tripas dela e as cortaria como uma linguiça, enfiando tu no teu cu como um bate-estaca do alabama*.

Por fim, eu arrancaria a cabeça do seu pai, moeria seu cérebro e misturaria com a porra dele, e faria você beber inteiro, até se engasgar nesse misto de porra-cérebro-sangue. Jogaria gasolina em cima de você, enquanto te perfuro com um pedaço de pau em chamas, furando seu intestino e pulmão, enquanto coloco Sinatra no fundo, para acompanhar o rito de seus gritos de dor.

Então você quer um pouco de violência gratuita? Imaginar os outros sofrendo é fácil, quando não é com você, ou seus familiares. Violência gratuita em excesso, é como arrancar seus braços e enfiar os dois no seu cu, até arregaçar tudo e você ficar chorando, não é legal. A questão é: Você ainda quer um pouco de violência gratuita?

–><–

*Bate-estaca do Alabama consiste em cagar no ânus da pessoa, depois fazer sexo anal até entupir o intestino.