Blues da Insônia

Queria escrever um blues, que tivesse uma pegada suave e leve na leitura, e fosse suave e leve aos ouvidos. Quem sabe algo grandioso e que colocasse pessoas em um estado louco contemplativo, e se inspirariam para escreverem outras mais e mais coisas, apenas para minha vã mente de escritor fracassado se sentir parte de algo, se sentir útil ao mundo, poder dizer, “Ei, ah lá, a mina ali se inspirou no meu texto para escrever essa música”, está certo que ela teria uma vida muito melhor que a minha. Talvez ela se condicionaria e jogaria de acordo com o sistema, logo seria mais suave para ela.

Já eu, eu preciso ser o rebelde, a lâmina no escuro, que ajuda sem ser vista. Ou talvez tudo isso seja uma paranoia louca, daqueles momentos da vida que eu nem me entendo.

Tic tac, são três horas e trinta e três minutos, senhoras e senhores, Dave Van Ronk canta de forma sublime Saint James Infirmary, devo dizer que não ouvia versão alguma dessa música há anos. Let her go? God bless her. Canopos não está visível hoje, temo informar, senhoras e senhores, e aparentemente nem a lua, que deram espaço para nuvens espessas que adotam uma cor marrom com a poluição luminosa paulistana. Mas não tem problema algum, senhoras e senhores, amanhã tem mais?

Eu espero que não. São três e trinta e seis, repito, três e trinta e seis da manhã, qual o maldito motivo de eu estar acordado essa hora da noite? Eu não sei! Mas quando eu descobrir eu os informo! Meus olhos já estão pesados, e pedindo arrego, mas quando eu os fechos, dói. Como se algo os corroesse, oh deusa, oh deusa, deixe-me dormir, a imploro. Dave Van Ronk, Dave Van Ronk, porque diabos sua voz é um misto de frutas batendo ao leite no liquidificador, com estática da televisão e com minha cachorra acordando da anestia em plena agonia? E mais, porque diabos sua voz consegue ser tão melódica e agradável, a ponto de trazer-me a plenas lágrimas? Seria essa minha falta de sono? A culpa é sua? Ou você é um efeito da minha insônia?

Senhoras e senhores, senhoras e senhores, são três horas e quarenta e dois minutos da matina, retificando, três horas e quarenta e três da matina! Bom dia Vietnã, diria O Cara, se ele não estivesse morto. Consigo ouvir uma certa inquietação no quarto dos meus pais, e meu irmão se revira lá na sala, minha cachorra quieta, mas logo se coça e toca o sino que prendemos em sua coleira, é cômico, vos asseguro.

Se eu tivesse asas, se eu tivesse asas, provavelmente ficaria parado o dia todo e ocasionalmente a bateria, só pela piada. Mas aqui: não me interpretem mal, não me refiro a asas da forma que Rimbaud se referia. Me pergunto onde está Rimbaud nesse momento? Na África bancando o pederasta pervertido? Ou em algum buraco ou vala qualquer em algum lugar qualquer da França? Almôndega almôndegas almôndega.

São três e cinquenta em ponto, senhoras e senhores, e hoje mais cedo, lá para uma hora da matina, ouvi um tiro ao longe. Fiquei com certo medo, devo dizer, mas um minuto depois veio outro tiro, então minha alma se acalmou. Ainda são três e cinquenta, três e cinquenta, será que o tempo decidiu parar, tipo do nada? Será que ficarei aqui, parado, estagnado? Seria assim o inferno? Ou o céu? A noção de tempo em ambos casos deve ser nula. Rimbaud já passou uma temporada no inferno, onde ele abria asas de outros meninos em pleno prazer.

Lágrimas escorrem dos cantos dos meus olhos, pois são três e cinquenta e três, três e cinquenta e três, e meus olhos não aguentam mais ficar abertos, e muito menos ficar fechados, simplesmente não aguentam nada, é como minha paciência nos últimos dias. Estou com uma dor de cabeça de merda, desde quando eu estava na faculdade, das seisepouco às dezepouco. E aí até minha vinda para casa, das dezepouco até às meianoiteemponto. Só de mover os olhos dói. OS HERÓIS DO JORGE ESTÃO TODOS MORTOS. São três horas e cinquenta e oito, três horas e cinquenta e oito, senhoras e senhores.

Com a luz fraca e vacilante do meu celular, o olho no teto me olha no olho. Está frio agora, as paredes geladas e eu me arrependo ter ido para a cama sem camiseta, com toda certeza ficarei gripado.

São quatro horas em ponto, quatro em ponto, vocês ouviram direito, vejam bem. Na minha parede estava escrito que eu amava uma pessoa, mas ela não a vejo a tanto tempo, que seu nome jaz riscado, restando apenas eu amo. Eu amo rabiscos. O que é irônico, ao fato de que meu quarto é um caosia de rabiscos e grafites. Símbolo do Pyrate Byrån; símbolo anarquista; a letra de pela paz da cólera na parede; meu mantra secreto, parting glass, que foi alvo de muitas meditações em noites loucas e frias de insônia, como essa; uma poesia de Yeats; o cao sagrado e outras baboseiras nesse estilo.

São quatro horas e dez minutos, quatro horas e dez minuto, numa noite louca e fria de insônia, que eu poderia estar usando para meditar, colocar minha mente e idéias em ordem, mas eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo, ao invés eu escrevo essa baboseira aleatória, como se fosse algo legal, algo agradável, que meus amigos e familiares leriam, mas não é, não é, é frenético e falta a doce lapidação beat, que deixaria tolerável para leitura, mas só e a escrita suja e sem sal de um jovem de 20 anos com insônia. Porquê da insônia? Éris, Éris, diga-me.

Não tenho tido problemas, ao menos assim minto para mim mesmo, não tenho stress ou ansiedade, apenas essa coisa dentro de mim. Essa coisa que quer gritar e não fazer nada o dia todo, a não ser comer batata frita pelado numa rede. O ócio desassociado de qualquer aspecto burguês e inútil, um ócio proletário e construtivo, tanto espiritual, quanto intelectualmente. VAMOS MATAR A HUMANIDADE, E SALGAR A TERRA E POLUIR RIOS, PARA MATAR PLANETA. APENAS A EXTINÇÃO É A SOLUÇÃO. CANIBALISMO COMO MÉTODO RECREATIVO JÁ. NEM MESTRES OU DEUSES, APENAS CAOS E DESTRUIÇÃO.

Muitos bons jogadores em campo hoje, né Éder? São quatro e dezoito, quatro e dezoito e minha criatividade se esvai, senhoras e senhores. Ficarei contemplando o escuro e o frio, até o sol chegar, para talvez dormir em paz, Amém.

 

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Dark Sky

In the line of the Horizon, lies nothing.

The Sky is dark, like the night sky without stars.

All quite in the western front,

No war within oneself,

The city seems solid enough, as mass society seems immortal,

Nevertheless, everything dies, does not?

 

I have one last wish, before the end.

That dream of mine will become true,

However, with the end, we begin again,

We do the same mistakes all over again.

Come rain or come shine, only ‘will’ prevail.

An ill will, sick, greedy, fat with hope.

We keep faking until it becomes true.

 

Headache and Eletro music and more headache.

People around me laughing, and screaming, and moving along in the human shore.

There is nothing to mourn today, and nobody shed a tear, no sorrow.

The Sky is dark and no one mind.

 

I walk down the road and in the storm

At the crossroad, there is three paths:

The left one, to a happy life, besides the arduous road;

The right one, to an easy living, tons of money and lots of sorrow;

The middle one is a mixture, arduous road, lots of sorrow.

Nonetheless, the three paths leads to a deep abyss.

So what is the matter? What is the matter at all?

Why have a hard, but happy life, if it will be a waste?

Why have an easy living, with sorrow, if it will be in vain?

Why would I want a hard and sad life? It does not make sense at all!

Three deceiving choices, as far as I can see.

I just sat down, and took a deep breath. It will be over soon.

I will not move. Let the Void come and embrace me.

I do not give a fuck. I. Will. Not. Move.

 

–><–

Eu tava no busão, indo pra faculdade e vi que uma tempestade se aproximava. Então essa coisa aí surgiu na minha cabeça, em inglês. Eu não gosto de escrever em inglês, mas deixei a caneta rolar solta sobre o papel.