Bomba, bomba, homem-bomba, bomba, bomba, bomba

Americano é um bicho paranoico. E por americano me refiro aos norte-americanos, nascidos nos EUA. Eu fui para os Estados Unidos uma vez, e devo dizer que não foi a melhor experiência da minha vida. Primeiro pelo fato de que a volta para o Brasil foi um verdadeiro inferno. Antes de entrar em maiores detalhes, devo contextualizar vocês de quem e como sou, tanto físico, como mentalmente: Tenho 23 anos, sou moreno e tenho uma barba grande e bagunçada. E pelos deuses, eu sou arrogante, cabeça quente e sarcástico pra caralho.

Ironia do Destino ou não, fui aos EUA para comprar coisas, e estava de olho em um relógio, com um design mais moderno e bizarro, que acabei por comprar. Na hora de entrar no aeroporto, passei pelo detector de metal, minha bolsa não. Vou descrever o diálogo em português, para melhor entendimento de todos, mas prosseguiu dessa maneira.

“Senhor, o que seria isso? ”, perguntou uma guardinha, enquanto revirava minhas cuecas, CDs e livros, para tirar o lindo relógio lá do fundo. “Obviamente não é uma bomba”, eu repliquei com meu singelo sarcasmo. “Bomba?! ”, alguém atrás de mim gritou histericamente, e isso se alastrou rapidamente, como a fumaça das torres gêmeas no onze de setembro de 2001. Logo, todos gritavam e eu estava no chão. Alguns guardinhas gritavam comigo, “ONDE ESTÁ A PORRA DA BOMBA?! ”, e eu replicava: “NO CU DA SUA MÃE, DE TANTO QUE EU ME IMPORTO”. Aí entra um fadeout, provavelmente porque devem ter me dado um murro, tão forte que só o cacete.

Corta a cena e entra um fade in, eu estou sentado numa cadeira, com as mãos algemadas na costa, levando tapinhas na bochecha direita, enquanto uma outra pessoa abria um dos meus olhos e apontava uma lanterna para ele. “Ele está acordando”, disse a moça que segurava a lanterna e o meu olho. O cara parou de dar tapinhas. Chacoalhei a cabeça e abri os olhos. Na sala só nós: eu, o cara, e a mina. O cara era negro e tinha um cavanhaque maneiro, que dava a ele um ar de durão. Ela era asiática, – chinesa? – usava óculos e tinha cara de intelectual. Então ela perguntou:

“Onde está a bomba, senhor? ”, com uma voz suave. Eu, ainda meio tonto, respondi “Não tem nenhuma bomba, senhora”, com um tom sarcástico, dando ênfase no ‘senhora’. O cara não ficou nenhum pouco feliz com isso, aparentemente. Ele bateu as duas mãos na mesa, se apoiando e disse: “Não banque o engraçadinho comigo, camarada”. Aí que eu saquei a deles, é a policial boa e o policial malvadão. “Tenho cara de palhaço pra brincar com você, chapa? ”, repliquei, pedindo o tapa que veio logo em seguida.

“Eu estou tentando te ajudar, senhor, você só tem que colaborar comigo”, disse a moça, como se tivesse saído de um filme policial clichê dos anos 80. Maldito seja os anos 80. “O quê? Tão brincando de policial bom e policial mal? ”, um tapa, “Tá, já entendi. Mas deixa eu deixar claro: Não tem bomba alguma”, outro tapa, “Sarcasmo, Sarcasmo! Eu estava sendo sarcástico! ”, gritei, virando a cara esperando outro tapa, que veio quente, “Olha pra mim, eu sou um bobalhão, eu não tenho nenhuma bomba”, esse tapa fez eu cair no chão, com cadeira e tudo, já que estava algemado com a mão nas costas.

“O que vocês querem de mim? ”, perguntei, quase chorando. “Onde está a porra da bomba?! ”, gritou o cara. “Não banque o engraçadinho comigo”, eu disse abrindo um sorriso sarcástico. Tudo bem, falando agora, eu entendo que eu estava pedindo para levar uns tapas. O que de fato aconteceu. Por mais horas e horas. A moça dizia que queria me ajudar, o cara dizia que eu estava brincando com a cara dele, e eu pedindo tapas abertamente do cara. Como não amar os EUA?

Alguém, então, bateu na porta. Meu nariz sangrava, bochechas inchadas. A chinesa abriu a porta, esticou metade da cabeça para fora. Alguém sussurrou algo para ela. Ela fechou a porta, abriu um sorriso sem graça em minha direção e disse, “peço desculpa por tudo, senhor, ficamos sabendo que tudo não passa de um mal-entendido”, “sério? Não me diga. Eu devia tê-los avisado antes, não é mesmo? ”. O cara veio com um pano, estancar o sangue do meu nariz, com um sorriso amarelo e sem graça. A moça continuou: “a perícia chegou ao laudo, de que a suposta bomba era na verdade um relógio”. “Se vocês tinham o objeto, porque me perguntaram onde estava a bomba? ”, eu indaguei, soltando alguns gemidos de dor. “Procedimento padrão”, sorriu o cara.

Conferi minhas coisas, tendo certeza que tudo estava de acordo, para evitar que algo tinha sido levado de ‘evidência’. Eles me colocaram no próximo voo para o Brasil, na primeira classe, o que não dava muita diferença, pois beber champanhe ou uísque com a cara inchada, e cheia de feridas não é uma boa. Me acordaram no meio do voo, porque supostamente eu estava dizendo “bomba, bomba, bomba, homem-bomba, bomba, bomba, bomba”, enquanto dormia. Mas essa, meus amigos, é uma história para outra ocasião, não é mesmo?

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