Uma tarde com o Tio Sheo

Ferdinanda era uma galinha. Não uma galinha qualquer, claro, era uma galinha abençoada, quase que sagrada. Ela tranquilamente andava por aí, por toda Tamriel, e nenhum dos habitantes tinha a ousadia de colocar ela em uma panela. Isso não quer dizer que um dia já não tentaram. Tentaram sim, oh sim, pode ter certeza, mas isso nunca deu certo: a pessoa sempre saia voando, tendo uma bela, bela, bela visão de todo o continente, lá do alto, até cair para sua morte.

Acontece que Ferdinanda era amiga do bom e amigável Tio Sheo, sim, sim, aquele aquele Tio Sheo, do queijo e raposas. Algumas pessoas até diziam que os dois tinham uma relação, e que isso deixaria Hircine com inveja. Mas novamente, além dessas pessoas voarem alto, alto e tão alto, que não conseguiam se sustentar no ar, quando elas caíam, seus corpos eram ingeridos por uma matilha de lobisomens.

Se eles têm, tiveram ou terão uma relação amorosa, isso está longe da minha jurisdição. Éris me perdoe, mas não serei eu que questionarei o estilo de vida dos Príncipes Daedra. Quero dizer, eu não tenho absolutamente nada contra zoofilia, o amor se expressa desde formas simples, até as mais complexas.

Sem querer me desviar do assunto, tratando de coisas tão levianas assim, vim aqui relatar a vocês um dos debates que me enchem de paixão, pelo seu complexo conteúdo. Foi em uma tarde da primeira estação do ano, o Caos, que para os Tamrielianos seria em sun’s dawn, e para os católicos e caretas do mundo, em fevereiro.

Um dia, Ferdinanda foi convocada para uma tarde com o Tio Sheo, beber uma deliciosa taça de sangue, observando as paisagens de Shivering Islands. Tio Sheo sentava-se em seu trono, enquanto ela preferira sentar-se no chão – Ora essa, não seriam as galinhas seres tão humildes, afinal?

“Ferdinanda, oh, Ferdinanda, fico feliz por ter aceito meu convite para tomar uma taça de sangue”, disse o Tio Sheo, esbanjando felicidade e alegria.

“Có có cóó có”, replicou Ferdinanda, num tom modesto.

“Oras, vamos lá, você está falando da boca para fora”, disse Sheogorath, com um tom envergonhado, mas sem perder a característica megalomaníaca.

“Có có có có có”, afirmou Ferdinanda de forma carinhosa.

“Ah, tudo bem, tudo bem, você venceu. Mas então, querida Ferdinanda, diga-me sobre como anda sua vida”.

“Cóóócó có có cócócóó”, disse Ferdinanda, com um certo tom de seriedade, enquanto bicava – literalmente – um pouco de sangue da taça. “Cócócóóó cócó cóóóó có có”.

“É como dizem por aí”, disse Sheo a interrompendo. “Se você não come uma fatia de queijo por dia, você tem sérios problemas mentais”.

Os dois caíram em gargalhada por alguns segundos, Sheo estava meio cansado, de ter que receber herói a todo momento. Tudo bem, esses heróis faziam tarefas para ele, mas esses heróis não o entretém, assim como fazem com Sanguine.

Os dois tinham caído em total silêncio, bebendo de suas taças de sangue.

“Côcó, cócócó có cócócóóóó có có”, Ferdinanda disse, de forma apreensiva.

“Você sabe o que eu penso sobre ele, Malacath é mais popular que ele nas festas”, ele dá um longo gole no sangue, “E Malacath nem é popular nas festas! Mas chega de falar sobre Jyggalag, se você não se importar, ele me deixa louco! ”.

“Cócó cóóócó cócócó có có có cóóóócó”, disse Ferdinanda, virando a cabeça de uma lado para o outro – sabe, como galinhas fazem – ela então continuou, tomando uma tonalidade mais descontraída. “Có có cócóó cóóóó côcócó cócócócócóóó”.

“Agora, essa é de fato uma questão, não é mesmo? Mas honestamente, quanto tempo de descanso um daedra debilmental de fato precisaria?”

“Có có? ”, indagou retoricamente Ferdinanda.

“Errada! Na verdade, você está certa. Meio que”. Falou Tio Sheo de forma reflexiva.

“Cócóócó có có cóó có có”, Ferdinanda parou para dar uma bicada em sua taça de sangue, e continou “cócócó có có có cóó có có có”.

“Porque eu preciso de um motivo para tudo? Mortais, mortais, mortais. Sempre precisam de um motivo para fazer qualquer coisa”, deu um pequeno gole na taça e continuou “Por exemplo: As pessoas dizem que a luz caça incessantemente as sombras! Eu prefiro pensar que se não houvessem algumas luzes, não haveria nenhuma sombra”.

“Co có? Co có cócóó có có có! ”, exclamou Ferdinanda.

“Talvez, provavelmente, quem sabe? Eu não, é claro”. Disse Sheo, dando risadas.

Ferdinanda pareceu um pouco ofendida pela resposta indiferente, e a forma com a qual Tio Sheo caçoava dela.

“Cócócócó cóóóó! Có có cóó! Cóóóócócócó có có! ”, vociferou para Sheogorath.

“Como assim crocodilo?! Oras, saia já daqui, antes que eu mude ideia… Ou a ideia me mude”.

“Có cóó? ”

“Bom dia para a senhora”, disse Sheo, em fúria. Ferdinanda abriu o bico para dizer algo, mas Sheo gritou “Eu disse bom dia! ”

Ao estalar os dedos, Ferdinanda simplesmente sumiu no ar. Sheo soltou um suspiro, e apoiou seu rosto em seu punho. Teria sido melhor convidar Cicero, para uma taça de sangue? Não, talvez não. Cicero só sabe falar da própria mãe, aquele grande bebezão. Talvez fosse melhor consumir sua própria solidão, para alimentar sua loucura, concluiu Sheogorath, o príncipe Daedra da loucura.

 

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