O Vegetariano

Rogério era uma pessoa normal, como qualquer outra. Bom, pelo menos era assim que Rogério se via. Por algum motivo, era uma visão totalmente diferente do que sua família e amigos pensavam dele.

Sua família e amigos implicavam com Rogério, pelo fato dele ser vegetariano. Eles não aceitavam por nada essa decisão. “Como você não come carne?”, “Vai ficar doente assim”, “Vai morrer de fome, coitado”, “A natureza nos fez onívoros e não herbívoros”, e diversas outras falácias do tipo.

Ele, no entanto, mantinha-se neutro e feliz. As pessoas poderiam encher-lhe o saco à vontade, ele não dava uma foda. Rogério vivia sua vida normalmente, mas era tido como uma aberração, pelas pessoas que descobriam sua opção. Sempre que ia em festas de família, geralmente no fim do ano, como natal e ano novo, ele ficava apenas nas saladas e comidas que não continham carne. Seus familiares distantes ficavam horrorizados! Como poderia o pequeno Roger não comer carne?! Maldito, maldito, maldito. E todos punham-se a maldizer do pobre homem. No fim da noite, todos o olhavam de maneira desconfiada e desdenhosa.

A mesma coisa ocorria no serviço, quando Roger ia com seus colegas almoçar. “Mas você vai comer só isso?”, “Você deve ser retardado, por comer só isso!”. Ele apenas sorria e enfiava uma folha gigantesca de alface na boca. Mas em sua cabeça ele pensava o porquê das pessoas o rejeitarem, ele só não queria comer carne. É tão difícil de entender que ele queria fazer um protesto pacífico, pela forma com a qual as empresas de carne matam os animais em massa, sendo que quase 1/3 dessa carne é jogada fora, pois não conseguem vender tudo isso. É um protesto válido, pode não mudar merda nenhuma, mas ao menos ele está fazendo sua parte. Não concordar é uma coisa, mas não entender e demonizá-lo por isso, é horrível. Isso não entrava na cabeça do pobre Roger, porque as pessoas eram ignorantes dessa maneira?

Rogério era vegetariano fazia 3 anos. Seu corpo tinha se adaptado bem a esse estilo de vida. E embora ele já estivesse vivendo isso todo esse tempo, sua família continuava por não aceitar isso.

Uma noite, a família de Roger estava jogando um pouco de tranca e bebendo vinho, quando acabaram por tocar no assunto. Roger, claro, não estava no meio, pois estava viajando. E eles começaram a bolar um plano, que mais tarde foi chamado como ‘A Conspiração do Bife à Bolonhesa”, ou a CBB, por um de seus primos. A CBB era formada pelo seu pai, sua mãe, sua irmã mais nova, seu primo e tio.

Quando Roger voltou de sua viajem, a CBB começou a colocar seus planos em prática. Sua mãe cozinhava pedaços de carne junto com o feijão, usavam gordura de porco para fritar as coisas, pedaços de bacon na salada, e coisa do gênero. Rogério não era idiota, e embora não comesse carne há 3 anos, conseguiu sentir o gosto de toda aquele assassinato. Recusou-se a comer, fazendo greve de fome. Sua mãe, que não queria ver o filho morrer, implorou para que ele comesse a carne, mas quando viu que não teria jeito, começou a cozinhar sem o uso da carne. Todos os outros membro da CBB ficaram revoltados! Taxando-a como traidora do movimento e todos os outros membro a bloquearam no facebook. A mãe de Roger ficou extremamente deprimida e jogou toda a culpa em cima de Roger.

A conspiração então planejou o próximo passo, que seria forçá-lo a comer. No outro dia, amarram o pobre Roger numa cadeira e abriram-lhe a boca. Começaram a despejar uma espécie de Suco de Carne, goela abaixo. Pobre Roger. Roger se debatia e cuspia toda aquele líquido nojento, mas após certo tempo, acabou cedendo. No final dessa tortura, Rogério se mantinha imóvel na cadeira. Os membro da CBB conseguiram o que queriam. Roger tinham bebido quase 4 litros de carne. Pobre Roger, ficou apenas ali, sentado, morto. A família ficou desesperada e a mãe de Roger ligou para a polícia. Todos os membros da CBB foram presos e indiciados por assassinato. Um laudo da perícia mais tarde disse que Roger morreu por envenenamento de carne, pois seu corpo não estava acostumado a comer esse tipo de comida, e como acabou ingerindo uma grande quantidade em tão pouco tempo, acabou por falecer.

Roger, no entanto, foi para o Céu. Muito confuso, questionou Deus sobre o que havia acontecido. Deus explicou-lhe que ele havia morrido por ter sido submetido a engolir uma grande quantidade de carne e que, embora Roger nunca tivesse feito nenhuma caridade ou tenha sido uma pessoa amigável com todos e tenha se submetido aos pecados capitais, ele estava no céu por ser puro. Ele era um puro que havia sido corrompido pelo Sodoma abaixo. Era puro por não comer carne. Explicou-lhe também que todos ali eram vegetarianos e que matar um animal era cruel, e ali eles viviam em harmonia com os animais. Na mesma noite, Roger sentou-se ao lado de Deus em um banquete cheio de boas comidas vegetarianas e vinho, e todos os animais herbívoros e onívoros sentaram-se a mesa junto a eles. Deus fez um discurso, explicando que comer carne era uma brutalidade de seres retrógrados, e que todo aquele que comia carne iria direto para o inferno, onde seriam servidos com comida vegetariana, para que eles sofressem para o resto da eternidade. Então ele partilhou o pão e todos fizeram um magnífico sanduba de queijo com diversos tipos de vegetais e legumes. E assim Roger se sentiu em casa e passou o resto de sua eternidade correndo com lebres em volta de um rio, ou nadando nos lagos junto com belos peixes coloridos. Roger de fato estava no paraíso.

 

Bom dia, moço!

Era meio dia e todos estavam famintos e, provavelmente, estavam cansados. O ônibus parou, e para dentro pulou um sujeito, de aparência normal. Ao entrar, gritou: “Bom dia, moço! ”, e acenou ao cobrador. Se aproximou da catraca e gritou: “Bom dia, moço! “. O cobrador nem sequer olhou para o cara. Em uma atitude desesperada e afobada, o homem diz, se forma incessante: “Moço, moço, moço, moço, moço, moço, moço”. O cobrado o olha com uma cara de “quê que é, porra? “, e o homem diz: “Bom dia, moço! “. Uma loira linda sentava-se ao meu lado. Era um daqueles acentos preferenciais. Ela simplesmente levantou-se, dando lugar ao homem que, aparentemente, devia ter alguma deficiência. O homem atravessou a catraca, sempre dizendo em alto e bom som, seu “Bom dia, moço! “, a todos que para ele olhassem. Achei engraçado o fato dele se referir a moço, a quaisquer pessoas, independente do sexo ou idade. Por estar sentado próximo a catraca, o busão estar lotado e o lugar vago, ele decidiu sentar-se ao meu lado, quem poderia julgar-lhe? Vocês conseguem adivinhar o que ele falou, ao sentar-se ao meu lado? Não sei afirmar com certeza, porque comecei a ouvir Black 47 logo que ele entrou no bus e começou a falar seu bordão para todas as pessoas. Mas, sabe, tenho certeza que foi algo como “Bom dia, moço! “. Sua voz era alta, estridente e meio arrastada, dando a ele um ar de desespero e afobo. Sua voz, aliada a sua frase causava algum tipo de impacto na mente alheia. E isso culminava em minha mente, que repetia a frase, obstruindo aquele belo sotaque irlandês, do vocalista do Black 47. E sabe, assim como aquele carioca, eu adquiri esse tique do homem, e ao descer do ônibus, ao invés de agradecer ao motorista, eu simplesmente disse: “Bom dia, moço! “.

Nem Poe, nem Creedence

Ele chegou à conclusão de que tudo era um saco, e de fato era. Já pararam pra pensar que talvez o planeta Terra seja a bola esquerda de Deus? Quem sabe a direita! Nhá, talvez a esquerda, ele era canhoto. Pensava nisso enquanto massageava sua bola direita. O pior de tudo é que o Filho da puta era desajeitado, e acabou por pressionar a bola com força: Se jogou ao chão, as lágrimas, assim como quando havia jogado Slender pela primeira vez.

Era burro, mas quem poderia culpa-lo? Era burro. Por isso vivia se imaginando em tempos distantes, porque não suportava a porra do tédio dos contemporâneos. Ficava ali batucando e cantarolando: Toolá-roolároolároo. E então sua lamparina de mesa cresce e vira um monstro gigante com uma boca cheia de lâmpadas e grita: “Vá ter uma vida, pivete. Arranje um emprego, corte seu cabelo, faça sua barba, isso é coisa de criança. Pare de beber, pare de fumar, coma carne, acredite em Deus. Durma cedo, acorde cedo. Compre um carro, seja pé no chão”. E como resposta a lâmpada ouvia: “Toolá-roolároolároo, they’re looking for monkeys up in the zoo! And if I had a face like you, I do join the British army”. E a batucada, era constante, quase frenética, como Cassady dançando ao som de Gaillard. Era insano, psicótico.

Uau, estava escuro lá fora, e ele enxergava todos os tipos de diabos que atormenta o homem moderno: Contas, responsabilidades, filhos, amigos, laços sociais. Botou fogo em tudo e foi dormir. Era como Nero ao tocar uma bela música, perante a Roma flamejante: Não dava uma única foda.

Pilhas e mais pilhas de ossos, sendo destruídos. Pessoas e mais pessoas sendo esfaqueadas. Ele os destruía, ele os esfaqueava. E todo esse ódio o queimava por dentro, queimava e queimava, como fabulosas velas romanas amarelas. E tudo era tão simples, tosco e ridículo. Ele apertava um botão atrás do outro, trazendo uma mistura louca de LSD com músicas clássicas e mesmo assim ninguém se importava, nunca se importaram e nunca se importariam, porque ele pensava que tudo era aquilo e aquilo era tudo. Assim como a bola direita de Deus, que provavelmente era vênus, a bela estrela da manhã.

Um cara empolgado com a Geração das Batidas, das estradas, mas que via o quanto isso era impossível nos dias atuais: Assim como era impossível um mundo ao estilo Tolkien. Fantasioso, fora da realidade. Era necessário ter o pé no chão e não na estrada. Bollocks.