Desastre Natural

Às vezes temos que dar o braço a torcer. Fazer um sacrifício. Todo sacrifício é necessário, desde que ele traga um bem maior. Foi isso que o nosso “majestoso e grandioso” líder mundial disse. Sr. Vênus, The Light Carrier, como ele próprio se denominava. Sua ascensão foi irônica. Em todos os países ele ensinava lições de sobrevivência, “Como, de fato, viver”, como ele mesmo dizia. O mais irônico foi isso render-lhe 5 best-sellers, deixando Huxley, Orwell, Hemingway, Bukowski, Ginsberg, Poe, Baudelaire e Rimbaud no esquecimento! Até mesmo Rimbaud! Que merda de mundo em que vivemos hoje? Lemos cegamente um livro e seguimos cada uma de suas palavras, mesmo que elas tenham significados ambíguos. E tudo isso baseado num Darwinismo Social mascarado de liberdade. A cada dia batalhamos, quase que literalmente, pela sobrevivência. Viramos animais civilizados! E pensar que há 30 anos eram duas palavras antagônicas! O futuro é um inferno. Se alguém de um futuro próximo ler isso, entenda que o mundo não é belo! Não como eles dizem ser. Talvez o mundo um dia tivesse sido belo, mas não hoje. Ou pessoas do passado, não sei dizer. Ainda não inventaram viagem no tempo, mas se houver, certifiquem-se de evitar esse futuro.
Deveria ser difícil de pensar num futuro onde você abre o próprio peito e não encontra um… Coração, acho que era assim o que as pessoas-do-passado costumavam chamar, era tipo uma válvula onde se bombeava o sangue humano, o que era chamado de alma, por pessoas mais primitivas ainda. Esta carta que escrevo agora, é minha única esperança para um futuro melhor. Sou professor de história e, consequentemente, historiador. Saiba que tudo o que vocês veem nas escolas é mentira. Existem sim algumas verdades, talvez um nome ou outro. Mas talvez não seja da forma que é apresentado. Os nomes dos grandes poetas e escritores acima, são facilmente omitidos. Com exceção de Rimbaud, ele não é omitido, não, não é. Pobre Rimbaud. É demonizado. Assim como Calígula e Nero um dia foram. Tudo o que o Rimbaud escrevia de liberdade, de vida, foi tudo demonizado! Tudo! Não são valores de nossa sociedade. Fumar ópio?! “Por Vênus, grande e poderoso”! Poe e Baudelaire são hereges por fazerem isso. Mas as pessoas não se importam, estão satisfeitas com maconha, algo que ameniza a mente e as deixa calmas. Com certeza é melhor que o ópio e a LSD, que aumentam a percepção do universo e do mundo ao nosso redor. Sócrates! Há! Sócrates é um estúpido por falar que as massas talvez errem! A massa sempre está certa, a todo momento!
Sabe que assusta? Essa tal Válvula que bombeava o sangue. Coração. Sabia que por volta da década de 10 no século 21, algumas crianças começaram a nascer nem Apêndice? Sim! Isso é um fato interessante pra carandoles! Eles diziam Caralheos, ou algo assim, naquela época. Mas isso não vem ao caso. O fato é que isso provava a teoria do Darwinismo! Se uma raça tinha um órgão e suas crias nasciam sem esse órgão! Provavelmente era inútil e não servia para coisa alguma. Segundo diziam, ele não tinha utilidade alguma, a não ser para matar. Era como uma bomba relógio, em certos indivíduos ele apenas inflamava e explodia! Boom! Matando a pessoa. E pensar que crianças nasciam sem, “por Vênus, grande e Poderoso”! É um fato magnífico! Mas extremamente omitido nas escolas. Assim como a tal válvula, o Coração. Ele com o tempo se demonstrou inútil ao ser-humano. Talvez por isso palavras como Amor, Compaixão, foram totalmente excluídas do dicionário. E talvez por isso que poetas e escritores como Rimbaud, Baudelaire, foram esquecidos. Eu usaria a palavra Abandonados. Seria mais adequado. Eles geralmente falavam de Amor. Platão por si só! Para meu filho mais velho, Platão é apenas o irmão mais novo dele. Pobre Nietzsche. Tão inocente ainda. Espero que siga os passos do pai e vá estudar história, e não ser um matemático.
Talvez você do futuro (ou do passado) esteja se perguntando: “Por que diabos os humanos não tem mais coração?”. Eu tenho uma teoria básica. Na minha opinião tudo o que ocorreu foi um desastre natural, que forçou os homens a evoluírem, a sobreviverem. E por isso eles perderam esse órgão, que anos atrás era considerado essencial, era a alma, a essência da vida. O desastre natural, é algo meio inusitado de se pensar. Começou com uma guerra, uma guerra mundial por território. O que alguns chamam de Guerra Iluminada. Nessa época, o “Grandioso e magnífico” Vênus apareceu. E isso foi há, quase, 400 anos. Em 2016. Ele havia aparecido com sua face jovem, de um garoto de 20 anos, que deveria passar a noite na balada, sendo imprudente, arrogante e escroto. Mas não! Vênus era diferente! Amava política, achava que assim poderia ajudar a todos. Trazer a luz! Por isso seu título, The Light Carrier. Norte-Americano escroto. Claro que hoje não existe mais EUA, apenas a RFT, República Federativa da Terra. Venus, The Light Carrier. Tsc. O ódio que tenho por ele não pode ser descrito por palavras, e diria que até mesmo por atos. Vênus elegeu-se presidente com o seguinte bordão: “A Juventude entende o mundo”. E ele foi o único presidente da Terra até hoje, o maldito deve ser algum robô, ou talvez um tipo de demônio. Isso de fato não importa. Mas isso definitivamente não é uma democracia, ou uma república federativa. O fato é que Vênus começou a guerra, há 400 anos, dizendo que o planeta devia ser um só, se quiséssemos ser algo aos olhos das estrelas. Ele disse que poderia trazer a vida, ensinar-nos a viver, mais do que isso: Sobreviver!
O Darwinismo Social era uma tendência que estava renascendo no século 21. Ele já havia sido proposto no século 20. Mas havia ressurgido no século 21 como uma tendência, algo mais forte, menos racista! Mais homofóbico e intolerante com o povo de baixa renda, mas ainda sim menos racista. Seu boom foi na Terceira-Grande-Guerra, pessoas se matavam apenas porque elas eram inimigas. Porque carregavam bandeiras diferentes e falavam línguas diferentes. Isso é insano! Por todas as mulheres-corteses! Motivo tão fútil. Todos buscavam a unificação mundial, e muitos se baseavam e Maquiavel e em sua inspiração para “O Príncipe”, César Bórgia. No fim Vênus saiu vitorioso. E trouxe o mundo à luz. Ensinou-nos que um coração era algo inútil. Ensinou-nos técnicas, que são demasiadas longas para serem expostas aqui, de como substituir esse órgão inútil. Muito morreram, mas é assim mesmo, apenas os fortes sobrevivem. E a cada criança nascida, arrancávamos-lhe o coração. Não fazia diferença, elas já estava chorando mesmo. Mas fazíamos isso por volta de 380 anos atrás, hoje já não é necessário essa violência canibal. O corpo humano foi adaptado a não ter um coração, a não amar. Esse foi o maior desastre de toda a natureza, de toda a história: A natureza humano. “Não! Não amai o próximo, pois eles não lhe darão atenção. Eles o esmagarão assim que tiverem a chance de ascender de alguma maneira, seja social ou hierarquicamente.” – Já dizia o sábio livro do “Poderoso e sensato” Vênus.
Assim a humanidade foi conduzida para, o que eu chamo, de tempos negros. Eu diria que são tão negros quanto a idade média. Ao contrário da idade média, quando alguns padres produziam artes, haviam bardos e tudo o mais, nessa nova era das trevas não se produz nada intelectual. E o que é produzido é a mando de Vênus, uma espécie de maneira com a qual ele controla todo o intelecto do mundo. É o que dizia Orwell em sua obra-prima: “Controle o passado e você controlará o futuro”. Talvez seja essa a técnica do “Imponente e Glorioso” Vênus. Mentiras mascaradas de verdade. E então entramos naquela ideia de Huxley, de induzir as pessoas por meio do sono, fazê-las ouvir palavras repetidas vezes, até acreditarem que seja verdade. É claro que o “Excelentíssimo” não fez enquanto as pessoas estavam inconscientes. Apenas com discursos totalmente persuasivos e pretenciosos.
Esse mundo negro em que vivemos, não há sobrevivência. Não há futuro. Eles dizem que nós devemos sobreviver, mas não há escapada. Estamos todos perdidos. O homem é a destruição do próprio homem. Assim como o Dilema do ouriço, de Schopenhauer, que no inverno os ouriços precisam se juntar para poder se aquecer, mas ao fazer isso acabavam se ferindo. O homem necessita do homem, mas isso provoca sua destruição. O homem é o maior desastre natural que já ocorreu. E nesse mundo onde ninguém parece ser consciente, é interessante lembrar de Descartes. Pois tudo pode ser apenas ilusão. Não sei se viverei muito tempo sabendo o que eu sei. Talvez a MSA (Mundial Security Agency) esteja me vigiando. Talvez eles saibam que eu sei. Mas enquanto eles não vierem atrás de mim, continuarem da maneira que estou, sobrevivendo. Apenas sobrevivendo. Por isso suplico a vocês do futuro, ou do passado, não deixem que isso aconteça, ame o próximo e busque a paz, não lute por ela.

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Um universo paralelo

Beep-beep-beep. E centenas de pessoas corriam para dentro da coisa ambulante. Alguns ficavam nem para dentro, nem para fora. Assim como o gato que se estava vivo após a morte. Dentro da coisa as pessoas não mantinham contato visual ou verbal. Olhavam para o chão, ou para aquilo que tinham nos pulsos, ou guardados no bolso. Dentro da coisa só se ouvia o “Tic-tic” daquilo que as pessoas olhavam. Um tempo depois a coisa ambulante parou e se abriu novamente. Diversas pessoas desceram e mais entraram na coisa.

Esse universo é estranho, cinza.  As pessoas se locomovem por coisas ambulantes, sejam pequenas ou grandes. E eram todos controlados por aquilo que tinham nos pulsos e nos bolsos, que eram como controladores de mentes, que eram usados pelos grandes.

E nesse universo, tudo era estranho e avesso. Talvez seja isso que acontece com um universo movido a papel.

Estereótipo Sensacionalista

– Ih! Cê acha que vinga?
-Vinga u quê homi?
-Isso daê qui cê tá fazeno, muié.
-Ora! Mais é craro qui vinga! Eu tô fazeno isso desdi tarde, si não vinga eu num sei o qui eu faço!
-Ora! Si num vinga cê larga mão disso, é simples.
-Simples porque num é você qui tá fazeno, homi! Si cê tentasse issu i tivesse êxito, cê saberia o quanti eu tô sofreno.
-Aaah, larga a mão dessas baitolagem muié, isso é trabaio pra muié e não pra homi macho com’eu.
-Comeu o quê homi?
-Quem falo im comê mulher? Jesus, vai ficano véia i vai ficano idiota.
-Ora! Véia é tua mãe.
-Ô como cê fala da minha mãe, sua rapariga. Vou pro seu trabaio aí e num mi enche.

É, a vida no interior não é uma das melhores, claro. Mas esse povo sim é feliz. É horrendo e, na minha opinião, antiquado como as pessoas no interior fazendo a separação do trabalho por gênero sexual. Porém é uma realidade, e mesmo que não esteja ao nosso alcance, não deixa de acontecer. Olhem bem para este caso, em especial. A mulher está fazendo seu trabalho normalmente e o homem, como de costume não está fazendo nada, até porque, quem cuida da casa são as mulheres. Mas a mulher está fazendo algo curioso e o homem quer saber apenas se vinga. É claro que vingar no caso não é atribuído ao sentido de vingança, como vocês devem ter percebido pelo contexto. Vingar, no caso, seria algo do tipo “dar certo”, o homem quer saber se “vai vingar”, logo ele quer saber se “vai dar certo”. Vamos terminar de ver o desfecho dessa história, caros amigos. – Disse o narrador, saindo da mira da câmera e deixando o croma vazio para continuar a exibição do vídeo.

Na tela havia um homem e uma mulher. O homem estava vestido com uma calça jeans suja de terra e uma camisa branca semi-aberta, também cheia de terra. Usava um chapéu de palha que, ao que parece, foi feito por sua esposa. Fumava um cigarro de palha enquanto ficava sentado em uma cadeira de balanço, com sua espingarda apoiada ao lado. Sua esposa estava vestida com um vestido de brim preto com algumas flores rosadas e usava um lenço para segurar a cabeleira. Ela estava apoiada em cima da mesa, fazendo alguma coisa, mas a localização da câmera impedia que o telespectador visse o que estava ocorrendo. O quê causava o mistério e dava um prato cheio ao sensacionalista que apresentava o programa. Esse casal era o maior estereótipo caipira que eu já havia visto, e olha que eu nasci em Barretos. Mas tudo bem, isso é normal, uma vez que é um programa feito aqui em São Paulo, e Sampa é tipo um pedaço do EUA dentro do Brasil, sempre superiores e os corretos.

Não queria saber se ia ou não vingar, vingança é algo estúpido, assim como os paulista estereotipando os caipiras e coisas assim. Na verdade eu estava cansado desse papo nazista paulistano, então desliguei a tv e fui puxar um ronco, até porque, a televisão só passa merda 24 horas, se vinga ou não, eu quero é que se foda, pois o uso dessa gíria é algo totalmente desconexo, assim como os paulistas.

Fly me to the moon and let me play among the stars

Ele levou sua gaita à boca e soprou algumas notas tristes. Esse cara tinha o blues, ele entendia o blues, entendia a vida. Tocava com toda sua alma, jogando a melodia ao vento. Às vezes parava para dizer uma ou outra palavra em meio aos tragos de cigarro e uísque, após seu canto, ele retornava a sua gaita, e cada vez mais se emergia e dançava diante do universo. As estrelas passavam por ele em meio aos bends, blows e draws. E o universo se desintegrava aos poucos, conforme o blues ecoasse pelas paredes do quarto.
De repente parou, pegou o uísque e deu um trago, direto na garrafa. Sorriu de uma forma melancólica e gritou para que o mundo ouvisse:
-I’ve got the world on a String, sitting on a rainbow, got the string around my finger – puxou um bend em draw e completou o solo em blow, com sua voz melancólica continuou. – What a world! What a life! I’m in love.
Deu uma tragada longa no uísque e jogou a garrafa na parede. Acendeu outro cigarro, jogou sua gaita em cima da mesa e dirigiu-se a vitrola. Colocou um disco do Frank, o assistiu rodar por um tempo, até começar a tocar Fly me to the moon. Seu sorriso era sádico e, ao mesmo tempo, melancólico.
Quando a música começou a frenesi tomou conta de sua mente. Chutou sua Tv velha de tubo, virou a mesa e quebrou sua única cadeira na parede. Pegou uma faca e rasgou sua poltrona favorita, a mesma poltrona que sentava todas as noites para assistir a ascensão da lua. You are all I Want. Rasgou todas as cortinas e as jogou no chão. Revirou seu guarda-roupa, como se procurasse algo e acabou por encontrar uma pistola antiga, a usou para atirar em todas as lâmpadas, espelhos garrafas e qualquer coisa que fosse de vidro. A música parecia ser infinita, o jeito com que Frank cantava: tão alegre, espontâneo, vivo! Isso o deprimia, o jogava para baixo e o fazia se arrastar cada vez mais.
A música chegava a seu ápice, ele chorava e soltava, simultaneamente, uma risada psicótica. Então agarrou sua vitrola e pulou da sacada, chorando como se o mundo não tivesse mais sentido algum, e para ele não havia nenhum. Desceu todos os 12 andares em apenas um segundo. A música não o acompanhava mais, pois sua vitrola era elétrica, mas a música continuava em seu coração, em sua alma, pois a música é infinita e não depende de ninguém para continuar viva pelo vasto universo, que nos abraça de forma gentil e fraterna.
E assim se deu a desaparição dessa vida, que se uniu ao universo precocemente, caindo em cima de um carro policial. Nada foi elucidado e não se chegou a conclusão alguma. Ao menos ele foi à lua a sua maneira.
Fill my heart with song and let me sing for ever more.